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Parentalidade

É possível e desejável que as crianças experienciem apenas sentimentos considerados positivos?

É compreensível que os pais não desejem que os filhos sintam emoções consideradas “negativas”. Mas, na verdade, será possível que as crianças vivenciem apenas sentimentos encarados como “positivos”? E, mesmo que fosse viável, será que esse evitamento experiencial deixaria as crianças preparadas para lidarem com toda a gama de emoções que sentimos ao longo da vida?


Se, neste reino tão perto do nosso, as pessoas perseguiam o ideal da felicidade, por maioria de razão espelhavam-no na educação dos seus filhos, que desejavam ver permanentemente felizes. De acordo com esta idealização de uma infância quase perfeita, os mais novos deveriam experienciar sentimentos considerados “positivos”, sendo poupados às emoções encaradas como “negativas”.


Quando transposta para a educação, esta demanda tão obsessiva da felicidade levanta duas questões que não são de somenos importância:


Primeira: É possível que as crianças, durante a infância, experienciem apenas sentimentos considerados positivos?


Segunda: Mesmo que tal fosse possível, será que seria desejável?


Provavelmente a resposta a estas duas perguntas é não. Mas vamos por partes.


Quanto à primeira questão, é normal que os pais não desejem que os filhos sofram. E é natural que assim seja, pois a dor dos filhos magoa os pais mais do que o seu próprio sofrimento. Como tal, é compreensível que queiram poupar as crianças à vivencia de sentimentos “negativos”, como a tristeza, a mágoa, o medo, a desilusão, a vulnerabilidade ou a frustração.

 
No entanto, apesar de não gostarem, os pais não podem impedir os filhos de experienciarem sentimentos “negativos”, nem tão pouco conseguem controlar todas as situações que os podem provocar, como os conflitos com os amigos, as deceções, os fracassos, as dificuldades ou as frustrações. Por mais que queiram, não há nada que os pais possam fazer para evitar que os filhos, em algum momento das suas vidas, sintam este tipo de emoções. Mais tarde ou mais cedo, a vivência de sentimentos “negativos” é inevitável.


Relativamente à segunda questão, mesmo que, idealmente, os pais pudessem evitar a vivência de sentimentos “negativos” por parte dos filhos, essa possibilidade poderia não ser positiva a longo prazo. Tal como é fácil de prever, a consequência seria tornar as crianças impreparadas para lidarem com os sentimentos “negativos”, dificultando o seu amadurecimento, como aliás muitas vezes se verifica nos nossos dias.

A crescente impreparação para lidar com os sentimentos “negativos”


A impreparação para lidar com os sentimentos considerados “negativos” tornou-se, na atualidade, responsável por uma crescente fragilização dos mais novos perante a adversidade. Demasiado protegidos, frequentemente falta-lhes a gramática emocional para lidarem com os sentimentos, a resistência para aguentarem as adversidades e a força para ultrapassarem as dificuldades.


Sendo assim, o desejo de que os filhos se sintam continuadamente felizes, evitando os sentimentos considerados “negativos”, em vez de constituir um passaporte para a felicidade, pode contribuir, pelo contrário, para os tornar mais frágeis, desprotegidos e impreparados para lidar com a dor, tal como defende a psicóloga e analista junguiana Helena Santos, na obra Puer-Senex: Dinâmicas Relacionais: “Há uma verdadeira obstinação dos pais em livrar os filhos do sofrimento, gerando atitudes protetoras e a fantasia de poder mantê-los à margem de qualquer dor. Mas, quanto mais os protegem, mais os seus filhos se tornam criaturas frágeis, desprotegidas e impreparadas para enfrentar os desafios da vida”, que incluem sempre, em algum momento das nossas trajetórias pessoais, uma inevitável dose de sofrimento.


Para as crianças aprenderem a lidar com os sentimentos considerados “negativos”, é necessária uma aprendizagem gradual, desde a infância, que inclua a observação desses sentimentos nas figuras de referência das crianças, bem como a experienciação desses estados de espírito, enquanto vivência reconhecida e amparada pelos adultos. Assim, em vez de tentarem poupar constantemente os filhos aos sentimentos “negativos”, os pais podem ajudá-los a reconhecer e a lidar com estes sentimentos, apoiando-os enquanto enfrentam as circunstâncias que os causaram.

 
Neste sentido, pode ser positivo que as crianças experienciam sentimentos considerados “negativos” na infância, enquanto ainda comunicam os seus estados de alma aos adultos. A vivência destes sentimentos é uma oportunidade para os mais novos aprenderem a lidar com este tipo de emoções, amparados e apoiados. Se não aprenderem na infância, mais tarde, já na adolescência, quando deixam de partilhar as emoções com os adultos, de que ferramentas dispõem os adolescentes para lidarem com os sentimentos encarados como “negativos”?

icon Reflexão e ação

Reflexão e ação

Como ajudar as crianças a lidarem com os sentimentos "negativos"?

Reconheça e valide os sentimentos dos seus filhos

Muitas vezes, quando vemos uma criança triste, tentamos distraí-la desse sentimento considerado “negativo”, recorrendo a manobras de diversão. Essas manobras de distração poderão ser interpretadas pela criança como uma negação da emoção que efetivamente está a sentir. Além de não ter a oportunidade de aprender a lidar com uma emoção “difícil”, a criança perceciona que que há sentimentos que devem ser evitados ou negados.
Pelo contrário, reconheça que o seu filho está triste, procure inteirar-se do motivo e valide o direito à tristeza como parte integrante do espetro das emoções. Depois de dar tempo para a vivência da emoção, tente ajudá-lo a ultrapassar a situação que lhe provocou esse sentimento.

Não socorra de imediato os seus filhos

Com a melhor das intenções, muitas vezes os pais vão em socorro dos filhos assim que percecionam uma dificuldade ou um conflito, de modo a protegê-los dos sentimentos “negativos”. Só que, desta forma, as crianças não aprendem a ultrapassar dificuldades nem a resolver conflitos.
Em vez de socorrer de imediato o seu filho, fique atento e dê-lhe espaço para tentar resolver a questão com autonomia. Se ele não conseguir ou se o problema se avolumar, está na altura de tomar uma atitude, para que o seu filho possa sentir-se amparado e protegido.

Não poupe os seus filhos a todas as vivências difíceis

 

Para que as crianças não sofram, tendemos a mantê-las afastadas das situações que provocam sofrimento, como as dificuldades, as doenças e até a morte. Sem as expor demasiado aos problemas, há que evitar mantê-las dentro numa bolha que impeça o contacto com a realidade.

Mas… não exagere na reflexão sobre os sentimentos

Num tempo em que proliferam as obras que abordam as emoções, evite cair no extremo de intelectualizar demasiado as emoções, nomeando-as e refletindo tanto sobre as mesmas que se pode sempre correr o risco de passar a pensar as emoções, em vez de as sentir.