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Famílias

Calma... não temos de disparar em todas as direções para prepararmos as crianças para um mundo em mudança!

Com a preocupação de preparamos as crianças para um mundo em mudança, enchemo-las de atividades destinadas a colocá-las à frente do tempo. Mas existem requisitos prévios que conferem estrutura à infância e que se constituem como condição de base para enfrentar soberanamente os desafios do futuro, em vez de se ser controlado pelos mesmos.


Passamos a vida a ouvir dizer que o mundo que espera os nossos filhos e netos não será certamente igual ao nosso. E não só não será igual ao nosso, como poderá ser de tal forma diferente que irá convocar a necessidade de realizarem aprendizagens porventura radicalmente distintas daquelas que fizeram na escola.

 
Mas esta preocupação, se exacerbada, também pode desencadear uma resposta ansiogénica, que nos leve a disparar em todas as direções, com o objetivo de colocar as crianças à frente do tempo, de modo a deixá-las mais bem preparadas para um futuro… que ainda não sabemos qual vai ser.

 
A tendência mais imediata para dar resposta a esta preocupação tende a privilegiar a aposta nas mais modernas tecnologias e nos conhecimentos considerados de ponta, alargando o leque da oferta educativa e sobrecarregando o horário dos alunos com atividades curriculares e extracurriculares.


Contudo, se a estratégia for centrada na quantidade e na intensidade, o efeito pode ser o contrário do pretendido, contribuindo para criar crianças prematuramente cansadas, inevitavelmente inquietas, indesejavelmente desatentas e, como se não bastasse, compreensivelmente ansiosas.


Para preparar as crianças para um mundo que ainda não conhecemos, temos de começar por as ancorar no momento presente e na sua própria infância, favorecendo as vivências próprias da idade, sem procurarmos apressá-las, de modo a que construam bases pessoais sólidas.


Devemos também encorajar o desenvolvimento das atitudes e dos valores que densificam a interioridade das crianças, pois são estes que permanecem e dão consistência para que, mais tarde, se sintam suficientemente robustas e, ao mesmo tempo, maleáveis, para se projetarem no futuro, seja qual for a realidade que as espera.


Edificação de boas bases escolares


Para preparar as crianças para o presente e para o futuro, continua e continuará sempre a ser muito importante o domínio de conhecimentos básicos, como ler e escrever bem, interpretar corretamente os textos lidos, dominar as ferramentas básicas da matemática e ter uma boa bagagem cultural. Se as bases forem sólidas, os alunos ficam mais bem preparados para aprenderem aquilo de que vierem a necessitar, mobilizando os conhecimentos adquiridos.


A implementação da metodologia de trabalho de projeto, desde os primeiros anos de escolaridade, também tem importantes mais-valias para preparar as crianças para realizarem novas aprendizagens, na medida em que implica que conheçam e se apropriem das etapas de acesso ao saber, podendo replicar esse processo em novas circunstâncias.


A importância da economia da atenção


Com o aumento exponencial do volume de informação disponibilizada, deparamo-nos com a impossibilidade de prestar atenção a todas essas informações, que não conseguem ser digeridas nem elaboradas. Esta impossibilidade desloca o foco da informação para a atenção, que urge preservar e proteger.

 
A tomada de consciência de que a atenção se tornou um bem escasso e valioso, presente no conceito de economia de atenção, confere uma importância redobrada ao desenvolvimento de mecanismos atencionais mais profundos e duradouros, que permitam estabilizar e focar a atenção cada vez mais fragmentada e volátil das crianças.


Revitalização do pensamento lento


As preocupações que estão na base do conceito de economia da atenção conduzem à necessidade de revalorizar os mecanismos lentos do pensamento, colocados em segundo plano pela excessiva prevalência dos mecanismos rápidos de pensamento tão valorizados na atualidade.


As consequências desta opção civilizacional estão à vista. O predomínio da atenção multitarefa é responsável pela deslocação de um tipo de atenção profunda para uma forma de atenção radicalmente distinta − a hiperatenção −, que se carateriza por uma rápida mudança de foco entre atividades, informações e procedimentos.


A fragmentação continuada da atenção poderá estar na génese das dificuldades cada vez mais visíveis ao nível da atenção. A consciência destes riscos representa uma oportunidade para reconsiderar as potencialidades do pensamento lento, ao nível da educação escolar, baseado principalmente na linguagem e na escrita.


Desenvolvimento do pensamento crítico


Num mundo em que o acesso ao conhecimento deixou de ser suficiente para processar e digerir tanta informação disponível, confrontamo-nos com a dificuldade em fazer frente à subjetividade prevalecente, que nos leva a seguir ou a subscrever as opiniões que os outros nos oferecem já formatadas.


Nestas circunstâncias, a condição fundamental para nos relacionarmos com a informação passa a estar centrada no exercício do pensamento crítico, que deve ser desenvolvido desde os bancos da escola. Este pressupõe a prática continuada do espanto, que acontece quando nos permitimos pensar as coisas pela primeira vez, evitando precipitar-nos com ideias feitas.


Resgate do pensamento criativo


Se retrocedermos no tempo até à origem da palavra escola, ficamos a saber que, em grego, significava calma, espera e tranquilidade. Nessa época, considerava-se que encontrar a tranquilidade e atrever-se a esperar eram as condições necessárias para o desenvolvimento do pensamento criativo.

 
Nos antípodas da inquietação hiperativa, da agitação e do desassossego dos nossos dias, esta conceção implica a revitalização da vida contemplativa, de modo a acolhê-la no interior da vida ativa. Para tal, torna-se necessária uma aprendizagem da arte da contemplação, reabilitando uma pedagogia específica do ver.

 
Apenas a interrupção da atividade constante permite parar interiormente, exercitando a paciência, aceitando o aborrecimento e desenvolvendo a tolerância ao tédio, que nos empurra além dos limites conhecidos, desafiando-nos a explorar a criatividade para podermos encontrar algo de verdadeiramente novo.


Mobilização por causas


A capacidade de compromisso com causas é uma das caraterísticas intrínsecas das crianças que basta cuidar de não estragar para que possa ser desenvolvida. Nesta linha, pode ser um bom princípio partir das suas necessidades e preocupações para encorajar o seu envolvimento com as causas de proximidade que decidirem abraçar.


Este comprometimento com as causas próximas e, sobretudo, as ações desencadeadas para as defender, constituem-se como experiências marcantes para que, mais tarde, os jovens se comprometam com causas globais, delineando e envolvendo-se com as estratégias necessárias para as levar a cabo.


Novas tecnologias e conhecimentos de ponta


E, então, onde fica o envolvimento com as novas tecnologias e o desenvolvimento dos conhecimentos de ponta, nomeadamente do advento da inteligência artificial? Sem negar a importância desta realidade incontestável, poderemos optar por não a colocar prematuramente na linha da frente das prioridades educativas.


Com isto, não significa que se negue a importância destas realidades emergentes, ainda para mais na medida em que a escola pode ter um papel determinante a desempenhar para diminuir as desigualdades educativas. O cerne da questão é perceber que há tempo para o fazer, pelo que não é necessário elegê-lo como prioridade logo no início da escolaridade.


Na verdade, aquilo que previsivelmente não irá faltar no futuro será tempo para lidar com estas realidades emergentes. E − diga-se o que se disser − por mais exigentes que estas possam ser, não serão certamente mais prementes do que o desenvolvimento dos requisitos prévios para enfrentar soberanamente os desafios que colocam.

 
É precisamente por esse motivo que o desenvolvimento dos requisitos anteriormente enumerados precede e se constitui como condição para poder lidar com esta realidade emergente, sem ficar submerso por esta. Pode dizer-se que a antecedem e preparam o terreno para, mais tarde, enfrentar estes desafios, constituindo a base para os poder controlar em vez de ser controlado por estes.


Bibliografia:


Garcés, M. (2023). Novo Iluminismo Radical. Orfeu Negro.
Han, B. C. (2016). O Aroma do Tempo. Relógio D’Água.
Maffei, L. (2020). Elogio da Lentidão. Edições 70
Sousa, J. R. (2025). Como desenvolver o pensamento crítico das crianças. Manuscrito

Calma... não temos de disparar em todas as direções para prepararmos as crianças para um mundo em mudança!