Aprendizagem
De que falamos quando nos referimos ao currículo?
Habituámo-nos a pensar no currículo como sendo um programa pronto a ser aplicado. Mas entre a teoria e a prática existe um espaço que pode ir do currículo formal ao real, passando pelo oculto. Seguindo a história de O Principezinho, revisitam-se estas noções e legitima-se o papel do professor enquanto fazedor de currículo, em interação com os seus alunos.
Os equívocos do conceito de currículo
Quando pensamos em currículo, geralmente relacionamo-lo com o programa prescrito, como se as duas palavras funcionassem como sinónimos. E, quando evocamos o papel do professor, tendemos a fazê-lo coincidir com o de aplicador do currículo. Já quanto aos alunos, encaramo-los como recetores do currículo. Mas, na verdade, todas essas conceções não deixam de ser redutoras.
Acontece que podemos estar perante vários equívocos: não só o conceito de currículo não corresponde apenas a essa listagem de conteúdos; como o ofício de professor não assenta no conceito de mero transmissor de uma receita pronta a aplicar; nem tão pouco o papel dos alunos coincide com o de recetores desse elencar de matérias a serem “dadas”. Então de que falamos quando nos referimos ao currículo?
Do desenho do carneiro ao currículo formal
Elaborado por especialistas da área educacional, o currículo formal engloba o conjunto de diretrizes, conhecimentos, competências e valores que devem ser desenvolvidos nas escolas, de modo a garantir uma educação de qualidade a todos os alunos. Sendo imprescindível para balizar a aprendizagem dos estudantes, este currículo necessita de passar do papel para ser posto em prática na sala de aula.
Estabelecendo um paralelismo com a obra O Principezinho, de Antoine de Saint- Exupéry*, detenhamo-nos no momento em que o protagonista pede ao narrador para lhe desenhar um carneiro. Ao princípio, nenhuma das tentativas resulta, até que a solução de desenhar o animal dentro de uma caixa agrada ao Pequeno Príncipe, por corresponder ao requisito de o animal ocupar pouco espaço no seu planeta.
À semelhança de um carneiro dentro da caixa, também o currículo formal pode conter algumas limitações, por diversos motivos: este currículo é pensado fora do ambiente escolar, chega à sala de aula de forma verticalizada e carateriza-se pela idealização, sendo destinado a um aluno idealizado, sem ter em conta os contextos educativos concretos, nem as especificidades dos processos de aprendizagem dos alunos reais.
Da cativação da raposa ao currículo real
O currículo real corresponde àquilo que acontece na prática, na sala de aula, quando o professor procura implementar o currículo formal centralmente prescrito, traduzindo-o em atividades pedagógicas destinadas aos seus alunos, tendo em conta as variáveis do contexto educativo em que a escola está inserida.
Esta concretização pressupõe uma apropriação do currículo formal por parte do professor, de forma reflexiva, flexível, critica e criativa, procurando adaptar as diretrizes aos alunos concretos que tem à sua frente, que também têm uma palavra a dizer sobre aquilo que efetivamente desejam aprender.
É precisamente esta necessidade de cativar os alunos para as aprendizagens que evoca a relação estabelecida entre o Principezinho e a raposa, que na história teve de ser cativada através de rituais desenvolvidos ao longo do tempo, para que dessa relação nascesse uma amizade.
Tal como nesta história, também o professor necessita de cativar os seus alunos, estabelecendo conexões entre os conteúdos curriculares e o quotidiano das crianças, de modo a dar sentido às aprendizagens escolares. Esse processo concretiza-se através da planificação das aulas, realizada pelo professor, tendo em conta as propostas e os interesses dos alunos.
Das sementes do embondeiro ao currículo oculto
Por currículo oculto entende-se tudo aquilo que, sem ser planeado ou explicito, se transmite indiretamente, de modo informal, através da cultura escolar. Abrange valores, atitudes e comportamentos, como as normas vigentes, as regras de convivência, as relações sociais, a forma como o tempo é gerido, a organização do espaço na sala de aula e, ainda, as atitudes observadas no dia a dia.
Este currículo tem como ponto de partida novas situações não previstas nem planeadas que surgem no quotidiano escolar. O professor tem um papel fundamental para tirar partido dessas situações que, não tendo sido planificadas, se tornam relevantes para a formação pessoal das crianças e para a sua relação com os pares.
A invisibilidade deste currículo remete para os embondeiros do planeta do principezinho, cujas sementes são invisíveis, mas quando crescem podem ocupar muito espaço. Sendo o ensino um processo dinâmico, essa própria imprevisibilidade, se usada a favor da aprendizagem, transforma-se num motor para desencadear expetativas, envolver os intervenientes, ultrapassar a monotonia e acolher o inesperado.
Do geógrafo do sexto planeta ao professor como recriador do currículo
Na viagem ao sexto planeta, o principezinho conheceu um geógrafo que escrevia livros volumosos sobre o seu próprio mundo, apesar de não o conhecer, uma vez que se limitava a registar as observações transmitidas pelos exploradores que o visitavam.
Ao contrário deste sábio, é fundamental que o professor assuma o seu papel de pesquisador da educação, enquanto fazedor do currículo, por contraposição ao papel de operário da educação, responsável pela reprodução do currículo. É ao apropriar-se do conceito de currículo e ao participar na sua construção, acolhendo os contributos dos seus alunos, que o professor desenvolve plenamente a sua profissionalidade.
À medida que se assume como fazedor do currículo, a preocupação do professor deixa de incidir apenas no que ensinar, mas sim por que ensinar e de que modo. A resposta a estas questões implica que o professor encare o currículo com um processo que principia com a sua elaboração (currículo formal), passa pela concretização (currículo real), integrando os aspetos subjetivos da prática pedagógica (currículo oculto).
Bibliografia:
*Machado, T. & Paim, M. (2024). Revista Literatura em Debate, v. 19, n.º 33, p. 261-273, jan/jun.
Perrenoud, P. (1995). Ofício de aluno e sentido do trabalho escolar. Porto Editora.
Saint-Exupéry, A. (2015). O Principezinho. D. Quixote.
