Parentalidade
E se autoestimas aparentemente robustas afinal fossem frágeis?
Reforçamos tanto a autoestima das crianças que aquilo que não parece faltar-lhes é, na verdade, a autoestima. Mas, quando atravessamos para o outro lado do espelho, estas autoestimas aparentemente tão robustas parecem desmoronar como um castelo de cartas, revelando uma inesperada fragilidade. Afinal, de que falamos quando falamos de autoestima e de que autoestima precisam as crianças?
A autoestima está na ordem do dia. Para garantir uma boa autoestima, há que começar desde cedo, quando ainda se é criança. Com este fim em mente, os adultos tornaram-se pródigos no reforço positivo, enaltecendo entusiasticamente as qualidades dos mais novos, elogiando todos os seus pequenos progressos e exaltando continuadamente as suas conquistas.
O reforço da autoestima está alicerçado no reconhecimento da individualidade da criança, valorizando as características que fazem dela um ser único e especial. Mas não só. De forma mais ou menos subliminar, essa valorização muitas vezes realiza-se em comparação com os outros, com base numa postura competitiva que incentiva a criança a sobressair, com o objetivo de ser tão boa ou, de preferência, melhor do que os seus pares.
No polo oposto, quando é necessário chamar a atenção de uma criança para uma atitude menos positiva ou para algo que ainda não faz suficientemente bem, tem-se tanto cuidado na escolha das palavras − de modo a não a melindrar nem ferir a sua autoestima − que o discurso se torna complicado de interpretar, dificilmente surtindo o efeito pretendido.
O que não parece faltar às crianças é autoestima
Desta forma, chegámos a um ponto em que aquilo que não parece faltar às crianças é, na verdade, autoestima. Muitas crianças aparentemente até demonstram possuir uma autoestima robusta, que afirmam de forma exuberante, reivindicando um espaçoso lugar no centro das atenções.
Mas será que essa autoestima aparentemente tão robusta é verdadeiramente sólida? É que, se o fosse, as crianças investidas dessa autoestima não pareceriam desmoronar perante a menor adversidade, como se a sua autoestima desinsuflasse repentinamente, esvaziando-se como um balão. Nem tão-pouco emergiria, em lugar dessa autoestima, uma inesperada e desconcertante fragilidade.
Para o pedopsiquiatra Pedro Strecht, a emergência dessa fragilidade não é tão inesperada como possa parecer, já que, na sua opinião, a sua origem radica precisamente no narcisismo e autocentramento destas crianças. Pelo contrário, como salienta no livro Pais suficientemente bons, “quem está verdadeiramente bem consigo não necessita de estar sempre a demonstrá-lo nem de ter a aprovação alheia”.
É por esse motivo que, na sua perspetiva, “a necessidade de comparar para sobressair, paralisar ou até aniquilar o outro constitui um traço de personalidades narcisistas, aquelas que buscam um reforço permanente de si próprias, que precisam de um constante foco de atenção e que, por isso, são intrinsecamente frágeis e não toleram que o outro se sobreponha”. Para evitar este risco, é fundamental encontrar um ponto de equilíbrio entre o reforço narcísico de que a criança precisa e a inevitável necessidade de aceitar a frustração e de integrar a oposição, sem desmoronar do ponto de vista emocional.
Qual o conceito de autoestima?
A emergência da fragilidade em autoestimas aparentemente robustas levou o psiquiatra Christophe André a colocar em causa o conceito atual de autoestima, na obra Imperfeitos, livres e felizes. Para o fazer, começa por revisitar as qualidades que, no passado, eram celebradas pela sociedade − como a inteligência, a bondade e outras virtudes que obedeciam menos às leis da genética e da transmissão familiar −, por comparação com as valorizadas nos nossos dias, como a beleza, a força, a riqueza ou o poder.
Pautada pela exaltação dessas qualidades, a sociedade atual criou aquilo que este psiquiatra denomina como “autoestimas elevadas, mas frágeis, instáveis, dependentes, condicionais e desadaptadas dos verdadeiros combates da vida, que são os da felicidade e do sentido”. Estas autoestimas “inchadas com esteroides e ilusórias” são tudo menos felizes. “Maravilhoso, não é verdade?”, questiona-se. E questiona-nos.
As interrogações deste especialista não ficam por aqui: “Não virão muitos problemas de autoestima de uma visão demasiado restritiva e limitada do ego?”. Na tentativa de responder a esta pergunta, reconhece que a cultura ocidental, prodigiosamente potenciada pela sociedade de consumo, nos leva a regular a nossa existência mais pela diferença do que pela pertença: é valorizado sermos únicos e possuirmos objetos que farão de nós pessoas diferentes.
Aquilo a que este autor chama a “corrida ao ego” parece ter ultrapassado o limite do que nos é favorável, tornando-nos demasiado competitivos e não suficientemente cooperativos. De tal forma, que diversos estudos começam a comparar os benefícios e os inconvenientes da definição tradicional do eu centrada na diferença individual. A grande questão passa a ser: “E se cultivássemos, por exemplo, a nossa autoestima reforçando o sentido de pertença em detrimento do esforço de diferenciação?”
O encorajamento ao egocentrismo estimulado pela sociedade funciona, na perspetiva deste psiquiatra, porque “vivemos num mundo muito duro”. É precisamente por esse motivo que “temos uma necessidade tão grande de autoestima”. Mas o problema é que não é dessa autoestima. Então, de que autoestima precisamos nós?
De que autoestima precisamos nós?
A solução para termos uma autoestima sólida consiste, segundo Christophe André, em “internalizar as fontes de autoestima”, evitando que dependa apenas ou essencialmente de objetivos traçados por outros que não por nós próprios. Isto porque os trabalhos de investigação “confirmam que as autoestimas ditas ‘externas’, dependentes de alcançar objetivos concretos, são muito mais frágeis do que as ‘internas’, que se centram no desenvolvimento pessoal e na perseguição não de sucessos materiais ou visíveis, mas de capacidades psicológicas a que em tempos se chamava ‘virtudes’”.
De acordo com os princípios da psicologia da autoestima, deve evitar-se que a satisfação connosco próprios dependa dos nossos sucessos, pois “estas autoestimas ‘condicionais’ são menos sólidas e mais desconfortáveis emocionalmente”. Aquilo que o autor do livro apelida como “os doentes da autoestima”, “esses hipocondríacos deles mesmos”, vivem “mergulhados no medo do fracasso e da rejeição social, de serem esquecidos, de não serem reconhecidos e apreciados”.

