Parentalidade
Aprender não é sempre divertido: também implica esforço
A ideia de que aprender não implica esforço e de que as tarefas escolares têm de ser sempre divertidas, além de não corresponder à verdade, pode não ser favorável para desenvolver o sentido de responsabilidade perante a aprendizagem. Do outro lado do espelho, qualidades como a perseverança, a resiliência, a dedicação e a paciência também são importantes para a aquisição de conhecimentos.
Andamos a vender às nossas crianças a ideia falaciosa de que aprender não implica esforço por parte do sujeito que aprende. Fazemo-las acreditar que a aprendizagem tem de ser divertida, colocando o ónus da motivação do lado do sujeito que ensina, a quem é pedido que invente a roda, se necessário for, para fazer com que os seus alunos desejem aprender.
Claro que o papel do professor é muito relevante para despertar o gosto pelo saber nos seus alunos e para a qualidade das aprendizagens. Ter um professor que goste da sua profissão, empenhado, cativante, entusiasta e empático tem, naturalmente, um papel determinante na relação que a criança tem com a escola e, em última análise, com o saber. Mas, por si só, não constitui uma garantia de sucesso na aprendizagem por parte de todos os alunos.
Quando as crianças não progridem de acordo com o expectável, o professor alerta as famílias e inclui os pais no processo de aprendizagem dos filhos, para que estes ganhem uma motivação acrescida para investirem nas tarefas escolares. E, quando mesmo assim a situação não é ultrapassada, a solução passa por reforçar o apoio ao aluno, dentro ou fora da escola, para que este supere as suas dificuldades.
Todas estas etapas são muito relevantes quando as crianças se deparam com reais dificuldades no seu processo de aprendizagem. Mas, na realidade, as razões para a falta de progressos nem sempre radicam na existência de dificuldades. Por vezes, apesar de todos os esforços por parte dos adultos, as crianças não parecem estar verdadeiramente comprometidas com o seu processo de aprendizagem.
A implicação do aluno na aprendizagem
O cerne da questão é que não pode ser atribuída aos adultos toda a responsabilidade pelas aprendizagens das crianças. Existe sempre uma quota-parte de responsabilidade que está inevitavelmente do lado do aprendiz. Com todo o apoio necessário por parte do professor e dos pais, a criança tem de fazer a sua parte, implicando-se no seu processo de aprendizagem.
Essa implicação do aluno na sua aprendizagem pressupõe, da sua parte, motivação, interesse e compromisso, para se envolver num processo de construção do significado que, por vezes, até pode ser divertido. No entanto, atualmente existe alguma confusão entre divertido e significativo. Se a aprendizagem for divertida tanto melhor, mas não tem necessariamente de o ser; pelo contrário, a aposta no significado é muito relevante para que a criança se envolva no seu processo de aprendizagem, atribuindo um sentido àquilo que aprende. Assim, é fundamental que a escola dê voz aos alunos para exprimirem a sua curiosidade e procure dar-lhes resposta, através de metodologias ativas que os mobilizem para a construção do seu saber.
Mas também não é menos verdade que aprender implica esforço, perseverança, resiliência, dedicação, paciência e disponibilidade por parte do sujeito que aprende para a realização de tarefas que podem eventualmente não ser do seu agrado, ou que podem, porventura, agradar-lhe menos. A omissão desta parte da verdade, além de enganadora, acaba por se tornar prejudicial para a qualidade das aprendizagens, não só para as iniciais, como sobretudo para as subsequentes.
A ideia de que aprender não implica esforço fragiliza as crianças
À medida que a escolaridade progride e os currículos se complexificam, torna-se necessário um maior investimento do aluno nas tarefas de estudo individual, o que implica autonomia, sentido de responsabilidade, organização, capacidade de adiar a recompensa e, ainda, esforço. É através do desenvolvimento destas capacidades que o aluno se apropria de estratégias pessoais que lhe permitem aceder ao saber e autorregular o processo de trabalho escolar.
Mas, não menos importante, esta ideia ilusória de que aprender não implica esforço também fragiliza as crianças, tornando-as impreparadas para lidarem com os desafios e ultrapassarem as adversidades com que, mais tarde ou mais cedo, vão ter de se confrontar. Leva-as a construir a ideia enganadora de que tudo é fácil ou, pelo menos, de que tudo lhes irá ser facilitado, o que não é de todo verdade, como irão ter oportunidade de constatar pela vida fora. Pelo contrário, o exercício do esforço contribui para muscular a resiliência, a persistência, a vontade, a responsabilidade, o comprometimento e a capacidade de superação de obstáculos.
Esta impreparação para lidar com os desafios e as adversidades pode, no limite, impactar na consecução dos sonhos. Para atingirmos os nossos objetivos, é preciso talento, imaginação e vontade. Mas não só: também é fundamental empenho, resistência e esforço. Segundo Fernando Pessoa, a proporção é de dez por cento de inspiração e noventa por cento de transpiração − o que, por outras palavras, é o mesmo que dizer que o talento dá mesmo muito trabalho.
Toda e qualquer tentativa de realização pessoal implica sempre alguma forma de superação – não em competição com os outros, mas sim dando o melhor de nós próprios. Para concretizar os sonhos, é necessário insistir e persistir e, apesar dos insucessos, perseverar. Quem consegue aproximar-se do seu propósito de vida não é quem nunca fracassou – é quem conseguiu superar os fracassos e aprender com as derrotas. E, para tal, é imprescindível essa quota-parte de investimento e esforço que sublima o talento em sucesso.


Reflexão: Três mitos que importa repensar
Aprender tem de ser sempre divertido
O mito de que aprender tem de ser sempre divertido pressupõe que o processo de aprendizagem corresponda a uma sucessão de atividades lúdicas, concebidas para que as crianças aprendam sem se aperceberem de que estão a aprender, julgando que estão a divertir-se.
Na verdade, mesmo que as crianças se divirtam durante a aprendizagem, não é necessariamente porque o divertimento constitua o objetivo final deste processo. Será certamente porque as atividades propostas são estimulantes e porque os alunos se encontram motivados para as realizar, daí retirando prazer, o que é certamente muito positivo.
Mas o enfoque da aprendizagem não tem de ser necessariamente o divertimento. Se for divertido, tanto melhor, mas o mais relevante é o sentido das atividades escolares. Incluir os alunos na construção desse sentido, desafiando-os a participarem na planificação das tarefas, de modo a dar resposta aos seus reais interesses, é mais do que meio caminho andado para os cativar para a aprendizagem.
Aprender tem de ser sempre fácil
Quando se trabalha com gosto, é sempre possível que nos cansemos menos. O que é bem diferente de dizer que aprender tem de ser sempre fácil. Porque não é. A aprendizagem apresenta desafios que têm graus de dificuldade distintos, conforme os alunos e a fase em que se encontram, na medida em que o que é fácil para uns pode ser difícil para outros e vice-versa.
Mas o mais provável é que, ao longo do processo de aprendizagem, os alunos encontrem dificuldades que têm de ultrapassar, algumas mais específicas para determinado aluno e outras que abrangem a maioria da turma. A aprendizagem dos números fracionários e dos números decimais, de um modo geral, não é fácil nem imediata, implicando insistência por parte dos professores e perseverança por parte dos alunos. Mas quando os alunos compreendem uma matéria que lhes parecia difícil, também têm motivos para se regozijar.
Aprender tem de ser sempre significativo
Desejavelmente, aprender deve ser uma atividade significativa. Mas há temas e fases da aprendizagem que, em determinadas alturas, podem parecer tudo menos significativas para o sujeito que aprende. Antes de se adquirir a necessária proficiência leitora, a aprendizagem da leitura afigura-se penosa para o leitor principiante, mas é necessário ultrapassar esta fase para descobrir o prazer da leitura. O algoritmo da divisão pode parecer uma complicação antes de ser apreendido, mas depois de adquirido até pode constituir um desafio fazer contas cada vez mais difíceis.
Mesmo quando é significativa, a aprendizagem é um processo que também requer treino, repetição e memorização. E, por vezes, só depois de se ultrapassar determinadas fases da aprendizagem, é que se consegue atribuir sentido àquilo que se aprendeu.