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Parentalidade

Da necessidade de companhia à saudável capacidade de estar só

Num mundo em que a companhia é altamente valorizada, existe uma grande preocupação com o acompanhamento constante das crianças, para as proteger, ocupar ou evitar que se sintam sozinhas. Quando permanecemos deste lado do espelho, não permitimos que os mais novos atravessem para o outro lado, no qual a solidão não tem de ser necessariamente negativa.


Num contexto social em que as crianças são altamente investidas, é muito valorizado o acompanhamento constante dos mais novos, exercido através de uma supervisão intensiva por parte dos adultos. Os pais procuram que os filhos estejam permanentemente acompanhados, quer para ocupar o tempo da criança de forma considerada produtiva, quer para potencializar o seu desenvolvimento cognitivo ou, ainda, para controlar a exposição ao risco. Mas não só. Existe outra ordem de razões para esta supervisão intensiva das crianças. Esta prende-se com o receio de que se sintam sozinhas ou de que se aborreçam.

 
Nesta sociedade caracterizada pelo excesso de positividade, a presença é altamente valorizada, ao invés da solidão, considerada como algo de negativo, que deve ser combatido a todo o custo, com companhia constante. Ainda para mais, com a diminuição da taxa de natalidade, há muitas crianças que são filhas únicas, pelo que em casa só têm a possibilidade de interagir com os adultos, que as habituam à sua presença permanente, ou quase permanente.


A incapacidade de estar só é um mal psíquico dos tempos atuais 


Acostumadas a este modelo de relação, as crianças cedo se tornam dependentes não só da presença como da interação constante com os adultos. São disto exemplo as crianças que não conseguem estar sozinhas − nem que seja apenas por breves momentos − e ainda menos entreter-se com autonomia. Com o passar do tempo, este modelo que foi criado pelos adultos acaba por se tornar invasivo para os seus próprios criadores, que veem o seu tempo sugado por uma exigência excessiva de atenção por parte das crianças.


Apesar de este modelo se tornar invasivo para os próprios adultos que o criaram, poderia pensar-se que, pelo menos para as crianças, seria positivo, na medida em que beneficiariam de mais atenção. Mas este excesso de atenção, de supervisão, de orientação e de companhia também poderá tornar-se negativo para os mais novos, que não só se tornam demasiado dependentes, como se veem impedidos de desenvolver a autonomia, o sentido de responsabilidade e a saudável capacidade de estarem sós.

 
Para o pedopsiquiatra Pedro Strecht, não restam dúvidas nesta matéria. Como alerta na obra Pais suficientemente bons, “a incapacidade de estar só é um mal psíquico dos tempos atuais”. Esta incapacidade de estar só deve-se, na sua perspetiva, a um excesso de ligação, a um contacto permanente que permite pouco espaço pessoal, que satura com facilidade diversas relações e fragiliza processos de autonomia e de solidez emocional. As consequências estão à vista: “Demasiada ligação, ocupação e proteção desviam os mais novos de desenvolverem de forma lógica os seus padrões de autonomia e responsabilidade”.

 
Recuperar a capacidade de estar só


Pedro Strecht contraria a tendência vigente defendendo a relevância da saudável capacidade de estar só: “Em tempos em que a aparente necessidade de estar sempre em ligação com tudo e todos, sobretudo através das redes sociais, e em que muitos parecem não saber como lidar com o silêncio ou com a mera ausência de estímulo externo, reaprender a desenvolver esta saudável capacidade surge como uma ideia importante a recuperar”.

 
Esta saudável capacidade de estar só favorece a possibilidade de desenvolver aquilo que o pedopsiquiatra Donald Winnicott denominou como integração emocional. É precisamente esta capacidade de integração que permite guardar e digerir as experiências, de modo a que estas façam sentido e adquiram espaço na memória de uma construção emocional individual e coletiva.


O movimento de introspeção, que se atinge fundamentalmente quando estamos sós, é responsável pelo desenvolvimento da capacidade de pensar e de criar. Construído a partir da infância, é este movimento que, nas palavras de Pedro Strecht, nos desafia a expandir “a riqueza do nosso diálogo interno, aquele que nos põe a falar, a pensar e a imaginar connosco próprios e com os outros, sem que a sua presença física seja necessária”.

 
Urge alterar a visão sobre os tempos "mortos"


É precisamente por esse motivo que urge alterar a visão negativa que temos dos chamados tempos “mortos” ou dos momentos de alguma natural solidão. Estes desempenham um papel relevante para ajudar “a crescer, a pensar e a refletir e, sobretudo, a integrar toda uma série de experiências vividas”, como salienta este autor.


De acordo com esta visão, estar sempre em cima dos filhos, não lhes dando a possibilidade de estarem sós, pode implicar uma dificuldade posterior em cuidarem de si mesmos, o risco de manutenção de ligações de total dependência dos outros e uma marcada sensação de insatisfação, que nada nem ninguém parece capaz de preencher.

 
Para o prevenir, é necessário dar tempo e espaço aos mais novos para que tenham oportunidade de estarem sós. É esta imprescindível aprendizagem da solidão que lhes vai permitir integrar as experiências emocionais, expandir o seu mundo interior, fortalecer a autonomia pessoal, desenvolver a imaginação e aprofundar o pensamento independente.

Da necessidade de companhia à saudável capacidade de estar só
icon Reflexão e ação

Reflexão e ação

A arte de tirar partido da solidão

A relevância de saber brincar sozinho

Em casa, os pais podem dedicar algum do seu tempo para brincarem com os seus filhos e, quando o fizerem, é positivo que estejam realmente disponíveis para se envolverem na brincadeira. Mas não têm de estar o tempo todo a brincar com os filhos. Também devem incentivá-los a brincarem sozinhos, no seu quarto, criando o hábito de se entreterem com autonomia.

A desocupação do tempo das crianças

Temos tendência para preencher demasiado o tempo das crianças, com uma sucessão de atividades, com o objetivo de lhes dar mais oportunidades de desenvolvimento e de aprendizagem, bem como para as entreter e acompanhar.
É importante contrariar esta prerrogativa, evitando ocupar todo o tempo dos mais novos. Cultivar intencionalmente a desocupação do tempo permite aumentar a tolerância ao tédio e tornar-se mais criativo para superar o aborrecimento, ao mesmo tempo que desenvolve a reflexividade e a introspeção.

A importância da atividade independente na infância

O declínio da atividade independente na infância − que se traduz na limitação do tempo que as crianças podem passar sozinhas, no território que podem descobrir autonomamente e nos pares a quem podem associar-se − está a afetar o desenvolvimento das crianças, condicionando o desenvolvimento da sua resiliência e confiança.
Para inverter esta tendência, importa dar mais espaço à atividade independente das crianças, criando condições para que a segurança se alie à autonomia.

Proteção sim, superproteção não

Ficámos tão obcecados com o risco que intensificámos a vigilância das crianças, de modo a evitar que corram todos e quaisquer perigos. Se estar atento e evitar que as crianças se magoem é positivo, já querer controlá-las constantemente, pelo contrário, impede o desenvolvimento da autonomia e incentiva uma cultura do medo.
Em casa, é preferível tentar eliminar os riscos existentes, para que as crianças possam brincar sozinhas sem correr perigo. Em locais exteriores, nos quais é mais difícil controlar as situações de risco, há que exercer uma vigilância responsável sobre as crianças, sem que esta se torne demasiado intrusiva.