Parentalidade
Entrevista: A escola com um rosto humano
A professora do 1.º Ciclo Leonor Braga reflete, nesta entrevista, sobre questões que, neste tempo mais acelerado, se espelham na sua prática pedagógica, abordando a necessidade de dar espaço às crianças para que estejam mais tranquilas, a sós com os seus pensamentos, experienciem o tédio e deem asas à criatividade.
1. Qual o papel do adulto para que a autoestima de uma criança se torne robusta?
O papel do adulto na relação com as crianças, para mim, deve ser sempre sustentado no bom senso, nomeadamente no que se refere ao desenvolvimento da autoestima. Devemos contextualizar as crianças no seu meio envolvente, na família e na relação com os pares, mas sobretudo estar atentos à imagem que têm de si próprias perante os outros. São muito importantes as palavras que usamos quando falamos sobre as crianças, devendo ser evitados os julgamentos e os rótulos.
Para que os alunos evoluam, o reforço e o encorajamento são fundamentais, mas sem mascarar a verdade. O que quero dizer é que as crianças são inteligentes e sensíveis para perceberem aquilo que dizemos, para se autoavaliarem e para se compararem com os pares, mesmo nas escolas que não valorizam a competição. Cabe-nos regular e, muitas vezes, provocar situações no dia a dia que levem os alunos a sustentar e a desenvolver a sua autoestima.
2. É relevante que as crianças desenvolvam a saudável capacidade de estarem sós?
Nos dias que correm, cheios de estímulos − em que se valoriza demasiado o estar sempre a fazer, sempre a aprender − é, sem dúvida, bastante relevante criar condições para que as crianças possam estar sozinhas, em alguns momentos. Algumas crianças têm atividades extracurriculares todos os dias da semana e, muitas vezes, constato o cansaço que apresentam.
Penso que, se é importante que as crianças recebam estímulos exteriores, não é menos relevante que tenham momentos de introspeção, de reflexão, de contemplação e de retorno à calma, para aprenderem a estar consigo próprias e até para se aborrecerem, sem saberem o que hão de fazer a seguir. É quando estamos sozinhos, com os nossos pensamentos, que melhor criamos, uma vez que estamos disponíveis para nos espantarmos e deixarmos surpreender pelo inesperado.
3. Qual a diferença entre os conflitos que naturalmente surgem entre as crianças e o bullying?
Na minha prática pedagógica, uso instrumentos que contribuem para resolver os conflitos que naturalmente surgem entre as crianças, como o jornal de parede, onde os alunos escrevem sobre os acontecimentos, e a assembleia de turma, durante a qual são discutidos esses assuntos. Mas sei que há crianças que não utilizam esses instrumentos.
Para ajudar a resolver os conflitos, é necessária uma postura de escuta para ouvir as partes implicadas, capacidade de observação e muita ponderação ao intervir nas discussões entre as crianças, para evitar cair em moralismos que não ajudam as crianças a desenvolver a autoconsciência.
Mas a distância que vai do conflito ao bullying pode ser ténue e difícil de identificar, pelo que toda a comunidade escolar tem de estar atenta e dar prioridade a questões como estas, quando surgem. Acredito que, nestas idades, uma atitude negativa repetida − seja de um para um, ou de muitos para um − possa ser travada atempadamente.
Quando existe bullying, preocupa-me a criança que é alvo dessa humilhação, mas também aquela que o pratica, que estará certamente em sofrimento e terá outros comportamentos preocupantes que merecem a atenção dos adultos que a rodeiam.
4. Desacelerar no tempo e desenvolver a tolerância ao tédio é importante para as crianças?
O desaceleramento do tempo é, sem dúvida, importante, mas o exemplo que estamos a dar às nossas crianças não é o melhor. “Menos é mais” é uma expressão que costumo usar muitas vezes quando reflito sobre o dia a dia na sociedade atual. É preciso criar oportunidades para desacelerar, para contemplar, para realizar atividades não planeadas e até para conquistar um tempo em que não há nada para fazer, de modo a que as crianças possam sentir tédio. Parece que, hoje em dia, as crianças não podem estar aborrecidas e, assim que se queixam de aborrecimento, sentimos que temos de fazer logo alguma coisa para lhes preencher o tempo. Mas, na verdade, esse tédio pode ser altamente inspirador.
5. Aprender tem de ser sempre divertido ou também implica esforço por parte dos alunos?
Aprender pode ser muitas vezes divertido. A aprendizagem deve ser estimulante e útil. A cada dia que passa, enquanto professora, procuro valorizar a utilidade das aprendizagens, dando-lhes sentido. Mas essa motivação não é unilateral: também tem de haver uma predisposição, por parte das crianças, para que a aprendizagem efetivamente aconteça. Partilho que algumas crianças, por diferentes razões, muitas vezes se colocam numa posição de recetividade sem se implicarem verdadeiramente no seu processo de aprendizagem, como se o esforço tivesse de estar exclusivamente do lado do professor. É preciso desmistificar este processo de descoberta das aprendizagens, que implica naturalmente empenho e esforço por parte dos alunos, não cedendo espaço ao desinteresse ou ao imediatismo.
