Parentalidade
Da sobreocupação do tempo à tolerância ao tédio
A sobreocupação do tempo tornou-se transversal à ocupação do tempo livre, que assim deixa de ser livre, para se tornar igualmente ocupado. Há que romper este padrão, reaprendendo a ser tolerante ao tédio, que está à espreita do outro lado do espelho.
Ao longo do ano, temos o tempo inevitavelmente preenchido com o trabalho, com a escola, com as ofertas extracurriculares, com as festividades e com a deslocação entre todas estas atividades. O mais paradoxal é que, à semelhança do experienciado durante o ano, nos tempos livres tendemos a replicar o modelo aditivo de tempo ocupado, no sentido de aproveitar ao máximo o tempo livre. Com esse intuito, enchemos o tempo livre, transformando-o em tempo ocupado, sempre em busca do novo, do excitante e do surpreendente.
Quase sem darmos por isso, esta incessante busca transforma-se num círculo vicioso que requer cada vez mais novidade, excitação e surpresa, para criar a mesma dose de adrenalina. Esta procura constante rapidamente conduz à insatisfação. Parece que já nada é suficiente para satisfazer tamanha necessidade de ocupação e de novidade. E, nos intervalos de tanta atividade, as crianças aborrecem-se, solicitando mais e mais estimulação. Nesses hiatos de atividade, conotados com o tédio, procuramos engendrar desafios cada vez mais empolgantes para preencher o tempo, tornando-nos reféns de uma espiral interminável que, no final, produz sempre mais insatisfação, agitação e inquietação.
Cultivar a desocupação intencional do tempo
No livro O aroma do tempo, o filósofo Byung Chul-Han salienta que “a chamada sociedade do tempo livre e do consumo não comporta, em relação ao trabalho, qualquer mudança substancial”, apresentando “uma temporalidade particular”: “O tempo que sobra, devido a um aumento de produtividade, é preenchido por acontecimentos e vivências superficiais e fugazes”. Assim, a sociedade atual é a prova de que o ser humano “não é capaz de ter um tempo livre que não seja um tempo de trabalho” e, se bem que a produtividade crescente crie maior liberdade, “esta não é usada para uma atividade superior nem para o ócio”.
Como consequência, a eliminação dos tempos de paragem e de descanso, com a ocupação do tempo que deveria ser livre através de uma sucessão de atividades, deixa pouco espaço para o desenvolvimento do ser. Para que a educação possa abrir-se ao desenvolvimento do ser, há que reabilitar algo que parece perdido ou, pelo menos, comprometido: saber parar. Cultivar a desocupação intencional do tempo é primordial para poder aceder à interioridade e desenvolver a profundidade. Para que este insubstituível espaço vazio possa aflorar, há que resistir à tentação de preencher demasiado o tempo dos mais novos. Há que reaprender a arte de desocupar o tempo. E de fruir dessa recém-conquistada liberdade do tempo efetivamente… livre.
A sorte de experienciar o tédio
Habituadas ao padrão de sobreocupação do tempo, é natural que as crianças comecem por estranhar a desocupação do tempo. Mas a ideia não é recuperar o padrão de mais do mesmo, voltando a ocupar o seu tempo. Se, quando estiverem desocupadas, as crianças se queixarem de aborrecimento, não é necessário correr de imediato a entretê-las, submergindo-as numa sucessão de atividades destinadas a combater o tédio. Há que dizer-lhes que estão cheias de sorte. E há que dizê-lo com convicção – porque estão mesmo!
Ao dar às crianças tempo para que experienciem o tédio, estamos a abrir-lhes uma janela cheia de oportunidades inimagináveis. Quando as habituamos a parar, a exercitar a paciência, a aceitar o aborrecimento e a tirar partido do tédio, estamos a oferecer-lhes possibilidades com um elevado potencial de transformação. O tédio empurra-nos além dos limites conhecidos, desafiando-nos a explorar a criatividade, para encontrar algo de verdadeiramente novo, que ainda não sabíamos existir.
Nas palavras do filósofo Walter Benjamim, a “pura inquietação não gera nada de novo”, limitando-se a reproduzir e a acelerar o já existente. Ao invés, o tédio profundo − ao qual chama o “pássaro onírico, que choca o ovo da experiência” − constitui o ponto alto do descanso espiritual, essencial para gerar algo de novo. Nesta perspetiva, só quem é tolerante com o tédio será impulsionado procurar um movimento totalmente novo, que está na base de todo e qualquer processo criativo.


Bloco de notas
Na obra Sociedade do cansaço, o filósofo Byung-Chul Han apresenta uma metáfora para o processo de superação do tédio. Assim, quem se entedia ao andar e não tolera o tédio, tenderá a andar cada vez mais depressa, a acelerar o passo, a correr ou a cavalgar. Porém, este aceleramento do passo não é um modo de andar novo, mas apenas uma forma de andar mais rapidamente. Já quem é tolerante ao tédio, depois de um tempo a caminhar, acabará por reconhecer que é o próprio ato de andar que o entedia. Nesse momento, será impulsionado a procurar um movimento totalmente distinto, como a dança. Comparada com o andar linear, a dança, com os seus movimentos fluidos, rompe com o passo reto e surge como algo de novo.