Parentalidade
Nem tudo o que é conflito é bullying
Não há nada que preocupe tanto os pais como os filhos chegarem a casa a queixarem-se dos conflitos com os colegas. Será que estão a ser vítimas de bullying? Ou será que estão a enfrentar as situações de conflito que naturalmente surgem entre as crianças? Sem deixar de estar atento nem de intervir, se necessário, também há que entender que, do outro lado do espelho, nem tudo o que é conflito é bullying.
Os conflitos entre as crianças sempre existiram, mas atualmente parecem despertar maior preocupação nos pais. Por um lado, esta sensibilização por parte dos pais pode ser positiva para prevenir situações de bullying, mas, por outro lado, também pode ser excessiva, desde o momento em que todas as desavenças que naturalmente surgem entre as crianças passam a ser consideradas como potenciais ameaças. Podemos estar a usar… e a abusar da palavra bullying.
Com esta preocupação em mente, há pais que, quando os filhos têm um conflito com os colegas da escola, se apressam a diagnosticar uma situação de bullying, colocando naturalmente os filhos no papel de vítimas e os colegas no de bullies. Mas esse diagnóstico, na maior parte das vezes, felizmente, não corresponde à realidade. Na maioria das situações, estamos a falar dos conflitos que habitualmente surgem entre as crianças e que, não obstante as zangas e as lágrimas, desempenham um papel importante para o seu crescimento a nível emocional e social.
Os conflitos podem ter um lado positivo
Neste sentido, pode até dizer-se que a existência de conflitos tem um lado positivo, na medida em que representa uma oportunidade para aprender a resolver esses diferendos. A existência de conflitos funciona como matéria-prima para a aprendizagem da relação com os outros, que, obviamente, nem sempre é fácil e que implica necessariamente empatia e cedências mútuas. Mas também, e não menos importante, também pressupõe assertividade e capacidade de defesa dos seus próprios pontos de vista.
A necessidade destas aprendizagens conduz-nos a outra questão, que corresponde à maior impreparação demonstrada pelas crianças dos nossos dias para lidarem com os conflitos. Esta situação pode ser explicada pela menor exposição aos mesmos, que resulta do facto de as famílias, de um modo geral, serem menos numerosas e de as crianças terem deixado de brincar na rua. Na infância, as interações com os pares viram-se reduzidas, diminuindo as hipóteses de aprendizagem precoce das relações humanas, que passa a ser realizada essencialmente quando as crianças ingressam na escola e passam a interagir com meninas e meninos da sua idade.
Mas existe outra razão, que radica no maior centramento das famílias nas crianças (por serem menos e, frequentemente, únicas) e das crianças em si próprias (por não terem de dividir essa atenção). Mais autocentradas e menos disponíveis para ceder, as crianças entram mais facilmente em conflito com os amigos, dispondo, em contrapartida, de menos ferramentas para os resolver. Menos experientes e mais impreparadas para lidar com a exigente arte da negociação e da partilha, revelam maior dificuldade em gerir as emoções associadas à interação com os pares e menor resiliência para lidar com as contrariedades.
O potencial transformador dos conflitos
Hoje em dia, os pais estão mais atentos a eventuais sinais de mal-estar por parte das crianças, e prontos a intervir quando os filhos evidenciam dificuldades na relação interpares e chegam a casa com queixas dos colegas. Esta atenção na sua origem é positiva, na medida em que permite identificar eventuais situações de bullying e impedir que as mesmas se perpetuem no tempo. É que o facto de a maior parte das querelas entre crianças não ultrapassarem o nível dos conflitos com os pares não significa que, em alguns casos, assumam contornos mais preocupantes que, obviamente, exigem uma intervenção célere.
No entanto, se for excessiva, esta preocupação por parte dos pais pode revelar-se contraproducente, se estes quiserem a todo o custo evitar que os filhos tenham conflitos na escola e assumirem as suas dores, adotando uma visão unilateral da situação e tomando incondicionalmente o partido dos filhos. Na maioria das vezes, há duas visões para a mesma situação, e a história que chegou a casa poderá eventualmente não estar completa – não porque a criança esteja propositadamente a faltar à verdade, mas porque está a privilegiar o seu ponto de vista, inevitavelmente subjetivo.
Nestas circunstâncias, é fundamental que os pais conversem com os professores para tentarem perceber o que se passa e procurarem compreender a situação na sua globalidade. Perante um alerta dos pais, os professores necessitam, muitas vezes, de reunir mais informação, através da observação direta, do diálogo com os intervenientes e das informações das auxiliares.
Para que os conflitos entre as crianças da mesma idade tenham um potencial de aprendizagem ao nível das relações interpares, é importante que os mais novos tenham a possibilidade de começar por tentar resolver as suas desavenças com autonomia. Tal não significa que os adultos não estejam necessariamente atentos e prontos a intervir se constatarem que as crianças não estão a ser capazes de chegar a um consenso, necessitando de mediação na resolução do conflito. Esta mediação implica sempre ouvir atentamente as duas partes e envolvê-las nas sugestões para resolver a situação.
Quando é necessária a intervenção do adulto
Se o conflito for grave ou recorrente, se ocorrer entre crianças de idades diferentes, se envolver agressão física ou houver desigualdade entre as partes, com diversas crianças de um lado e apenas uma do outro, o adulto deverá intervir prontamente, para impedir injustiças, abuso de força ou agressões físicas ou psicológicas. Também é importante que as crianças saibam que podem recorrer a um adulto de referência sempre que necessitarem de ajuda para resolver uma situação que as incomode.
Mas, se a intervenção do adulto for baseada sobretudo na autoridade e na imposição de sanções, aquele conflito em concreto até pode ficar resolvido, mas hipoteca-se a aprendizagem de resolução dos conflitos subsequentes. A aprendizagem de gestão de conflitos implica a aprendizagem do diálogo entre as crianças, para que aquelas que se sentiram magoadas tenham oportunidade de falar sobre os acontecimentos e os sentimentos que estes lhes causaram, enquanto os colegas visados desenvolvem a capacidade de escuta e a empatia, aprendendo a colocar-se no lugar do outro.
Pressupõe, também, que todos os intervenientes se tornem mais sábios na capacidade de chegar a consensos e de fazer acordos que possibilitem uma maior harmonia no decorrer das brincadeiras. Os colegas não são espetadores passivos desta troca de palavras; pelo contrário, pelo facto de não estarem tão diretamente envolvidos na situação, podem ser mais objetivos numa proposta de solução que ponha termo ao diferendo.
O papel da gestão de conflitos na prevenção do bullying
A aprendizagem da gestão de conflitos não é fácil, nem tão-pouco rápida, e pode ter avanços e retrocessos. Trata-se, sem dúvida, de um longo processo, tão longo e tão complexo que dura a vida inteira. Mas é um privilégio quando é iniciado desde cedo, nos bancos da escola, numa idade em que se está a tempo de realizar uma aprendizagem profunda, com um elevado potencial de transformação.
Esta aprendizagem profunda pode desempenhar um papel determinante na prevenção do bullying, ao desenvolver a empatia pelo outro, a assertividade na definição dos nossos próprios limites, a assunção da responsabilidade perante as nossas ações e a capacidade de refletir antes de agir, essencial para fazer de nós seres humanos melhores.


Sabia que…
A capacidade de resolução de conflitos é, talvez, uma das aprendizagens mais exigentes da infância, mas é, sem dúvida, essencial para o desenvolvimento emocional e social do ser humano. Para que as crianças aprendam a gerir conflitos, é inevitável que tenham de experienciar a conflitualidade com os pares e de tentar ultrapassá-la.
Para que os conflitos entre as crianças da mesma idade tenham um potencial de aprendizagem ao nível das relações interpares, é importante que os mais novos tenham a possibilidade de começar por tentar resolver as suas desavenças com autonomia. Peter Gray, David Lancy e David Bjorklund, coautores de um trabalho publicado no Journal of Pediatrics, recomendam que os pais devem “deixar as crianças lidarem com algumas das suas próprias dificuldades”, sugerindo que resistam à tentação de as socorrer de imediato. Por mais que esta situação possa suscitar preocupação nos pais, é fundamental dar espaço à criança para que tente resolver os seus conflitos com os amigos, resistindo à compreensível tendência para intervir prontamente, de modo a evitar qualquer tipo de sofrimento ao filho. O que não significa que os pais não devam estar atentos e intervir, se necessário.