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Parentalidade

Da sobrevalorização do pensamento rápido à redescoberta das virtudes do pensamento lento

Vivemos numa sociedade que sobrevaloriza o pensamento rápido, responsável por uma aceleração do tempo. Ir contra a corrente, defendendo a necessidade de recuperar os mecanismos lentos de pensamento, pode ser exigente. Mas é necessário ousar atravessar para o outro lado do espelho, reabilitando as potencialidades do pensamento lento.


Na atualidade, assistimos a uma sobrevalorização do pensamento rápido. Considerado como um progresso civilizacional, este tipo de pensamento opõe-se ao pensamento lento, encarado como um retrocesso temporal. Esta realidade emergente coloca-nos perante uma interrogação: será que esta visão é correta e está a ser favorável para a própria sociedade que a criou?


Antes de responder a esta questão, podemos fazer o seguinte exercício. Imaginemo-nos a regressar ao cenário da vida selvagem, na qual um animal tem de dividir a sua atenção por diversas atividades para que, enquanto come, não acabe por ser comido. A consequência não é difícil de antever: o animal vê-se impossibilitado de se concentrar profundamente naquilo que tem diante de si, pois tem de estar permanentemente alerta com aquilo que está atrás de si.


Paradoxalmente, muitas das atividades mais valorizadas na atualidade, como a multitarefa e diversas atividades digitais, privilegiam este tipo de mecanismos atencionais, que geram uma atenção ampla, mas rasa, semelhante à de um animal selvagem. Como refere o filósofo Byung-Chul Han, na obra Sociedade do Cansaço, “as mais recentes evoluções sociais e a mudança de estrutura da atenção aproximam a sociedade humana da vida selvagem”.

 
Segundo a sua análise, estamos a assistir a uma deslocação de um tipo de atenção profunda para uma forma de atenção radicalmente distinta − a hiperatenção −, que se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. Esta forma de atenção multitarefa não corresponde, na sua opinião, a um progresso, mas, bem pelo contrário, a um retrocesso civilizacional.


Diferenças entre pensamento rápido e pensamento lento


O médico e cientista Lamberto Maffei também partilha desta visão, no livro com o emblemático título Elogio da lentidão, no qual aborda a diferença entre o pensamento rápido e o pensamento lento. De acordo com a sua explicação, o cérebro humano possui dois tipos de mecanismos: os primeiros são mecanismos ancestrais rápidos de resposta ao ambiente; enquanto os segundos, de caráter mais lento, desenvolvem-se mais tarde e são fruto do raciocínio.


De caráter automático ou semiautomático, os primeiros mecanismos são essenciais para a sobrevivência, como, por exemplo, quando alguém vê um tigre e foge sem sequer se questionar, ou quando retrai um membro atingido por um estímulo doloroso. Já a segunda modalidade, própria dos animais superiores, é inerente ao controlo de um ser humano sobre a sua própria vida, ao seu relacionamento com os outros indivíduos e com o meio ambiente.


Todavia, de forma totalmente contraditória, a tendência das chamadas sociedades avançadas consiste em atribuir aos mecanismos rápidos de pensamento uma posição predominante, em detrimento das formas de pensamento mais lento. Esta opção opõe-se à revalorização dos mecanismos de pensamento lento, considerados responsáveis por inverterem a seta do progresso, em nome de uma atitude tipicamente semelhante às saudades do passado. Neste contexto, tal como defende Lamberto Maffei, ir contra a corrente pode ser muito exigente. Mas, em contrapartida, seguir a maioria pode ser ainda mais redutor.

Riscos da prevalência do pensamento rápido

As consequências da opção civilizacional que elegeu os mecanismos rápidos de pensamento estão à vista. O progresso tecnológico produziu, além de profundas mudanças sociais, uma aceleração do tempo e, consequentemente, uma verdadeira revolução do pensamento, que se tornou, também este, mais acelerado. “Na correria da vida moderna, o pensamento rápido não tem, por natureza, paciência, qualidade graças à qual sabemos esperar antes de julgar e agir, contraposta à decisão rápida do fazer, que parece ter horror ao tempo que passa”, reflete o mencionado pensador.

Mas esta revolução tem os seus riscos.  Uma excessiva prevalência dos mecanismos rápidos do pensamento, designados por pensamento rápido ou digital, pode implicar soluções e comportamentos errados, danos na educação e, em geral, na vivência civil. A consciência destes riscos representa, simultaneamente, uma oportunidade e um convite para reconsiderarmos as potencialidades do chamado pensamento lento, inclusivamente ao nível da educação escolar. São precisamente estas potencialidades que nos permitem estabilizar a atenção, aprofundar o pensamento, apostar na duração e desenvolver a ética, mais necessária do que nunca para dar resposta aos novos desafios com que se confronta a humanidade.

Da sobrevalorização do pensamento rápido à redescoberta das virtudes do pensamento lento
icon Reflexão e ação

Reflexão e ação

Cultivar atividades que promovam a duração

Interromper o ciclo do “aqui” e “agora”

As crianças são, por natureza, impulsivas e as dos nossos dias tornaram-se mais imediatistas. Com uma postura tranquila, mas firme, os adultos devem procurar interromper o ciclo do “aqui” e “agora”.
Os pais podem adiar a satisfação dos desejos da criança, habituando-a a aguardar pela altura certa e a desenvolver uma atitude de expectativa benigna, que cria um intervalo de tempo entre a formulação e a satisfação do desejo. Esta expectativa e a ansiedade que a acompanha fazem parte do próprio prazer, que aumenta enquanto se antecipa e projeta aquilo que se deseja ter, fazer ou vivenciar.

Ler histórias mais longas, por episódios

A satisfação de ouvir ler uma história que chega sempre ao fim no próprio dia em que é contada pode ser substituída, gradualmente, pela leitura de uma história mais longa, que demore vários dias até estar concluída.
Esta dilatação da leitura da história no tempo implica paciência, capacidade de espera e desenvolvimento da criatividade, imaginando os acontecimentos seguintes e saboreando antecipadamente o prazer de continuar a escutar o desenrolar da narrativa, noite após noite.

Aposta em atividades que demoram tempo

As crianças constroem novos paradigmas mais pela ação do que pela palavra. Daí que seja relevante convidá-las para explorarem um leque de atividades pautadas pela lentidão.
A realização de atividades manuais, cuja aprendizagem e execução é dilatada no tempo, permite acalmar, recentrar e desacelerar, bem como desenvolver a persistência e a paciência. Contam-se entre estas a aprendizagem do crochet, do tricot, da tecelagem, das mandalas com lãs, bem como a pintura e a criação de mandalas. Todas estas atividades são demoradas, implicam repartir as tarefas em diversos dias e, no final, o investimento é altamente compensador.

Promover a prática de rituais cíclicos

Caracterizados pela repetição, pela sazonalidade e pela previsibilidade, os rituais cíclicos permitem estabilizar a noção de tempo, percecionar a duração e assinalar a vivência de datas marcantes, bem como a sucessão das estações do ano.
Os rituais podem ser vivenciados na família, tendo particular expressão na família alargada, dando especial relevo às tradições próprias de cada clã. Têm, também, particular relevância na escola, onde contribuem para a criação de uma identidade comum e para o reforço dos laços de afeto. Na comunidade, os rituais são investidos de uma carga simbólica plena de significado, promovendo a interação entre os participantes e densificando uma rede de proximidade.

Aprender a ver com olhos de ver

A aceleração generalizada priva o ser humano da capacidade contemplativa. Para inverter esta tendência, pode desenvolver-se a arte da contemplação com as crianças. Habituar o olhar ao descanso, à paciência e a uma atenção profunda constitui uma experiência que induz a desaceleração do tempo. Desenvolver a capacidade de escuta atenta e de respeitar alguns momentos de silêncio confere sentido a esta vivência que, se tiver sequência no tempo, se torna transformadora.