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Escolas

A Torre: Uma escola onde os alunos aprendem a pensar

A partir do projeto fundador, a Cooperativa A Torre soube tirar partido da experiência para evoluir, sempre com respeito pelo princípio primordial: basear a aprendizagem nas perguntas que os alunos formulam, de modo a encontrarem o mote para procurar as respostas.


Um aluno particularmente participativo estava tão impaciente por dar o seu contributo para a discussão que tentava interromper os colegas na assembleia de escola. Quando lhe foi relembrado que tinha de aguardar a sua vez para falar, manteve insistentemente o braço no ar, mas respeitou o princípio da Torre: todos temos o direito à palavra, mas também o dever de escuta.


Este seria um episódio igual a tantos outros que decorrem nas escolas que defendem os valores democráticos na educação dos seus alunos, não fora o seu desfecho surpreendente: quando finalmente chegou o tão ansiado momento de falar, o aluno baixou o braço e permaneceu em silêncio.


Estranhando a atitude por parte deste aluno habitualmente tão interventivo, o diretor pedagógico da Torre, Nuno Leitão, questionou-o: “Esqueceste-te do que ias dizer?”. “Não”, respondeu o aluno, laconicamente, com uma expressão pensativa. “Então?”, quis saber Nuno Leitão. “Já não estou de acordo comigo próprio”, confessou o aluno, antes de acrescentar: “É que, enquanto ouvia os outros falar, mudei de opinião”.


A resposta deste aluno é bem ilustrativa da importância dos projetos pedagógicos que valorizam o poder da palavra, nos quais, como salienta o diretor pedagógico da Torre, coexistem “o direito à palavra e o dever de escuta”. Vivenciados quotidianamente desde o início da escolaridade, estes princípios possuem um elevado potencial de transformação das crianças, que se inscreve na sua personalidade e marca indelevelmente a sua forma de estar no mundo, que pode passar, nomeadamente, por mudar de opinião no decorrer de uma discussão.


Colocar as ideias em ação


Como é possível que projetos pedagógicos como o da Torre, com décadas de existência, criados ainda antes do 25 de Abril para dar resposta às necessidades de mudança ao nível da educação, continuem tão atuais? Esta interrogação não deixa de me interpelar e ainda mais surpreendida fico quando penso que, na verdade, estão mais atuais do que nunca e fazem ainda mais sentido no contexto que estamos a atravessar.


Porque, na atualidade, é cada vez mais importante marcar a diferença na educação das crianças, desenvolvendo a capacidade de pensar com a sua própria cabeça, a empatia, a criatividade e as inteligências múltiplas. Mas também o extraordinário poder de colocar em ação estes princípios, com espírito de iniciativa, capacidade de organização, sentido de responsabilidade e espírito de compromisso.

 
Este ideário da Torre concretiza-se, de forma muito visível, ao longo da semana do Festival da Criativa’Idade, que decorre todos os anos, organizada pelos alunos do 6.º ano de escolaridade, aos quais cabe a liderança da programação das atividades que vão ser dinamizadas na escola. A decorrer em diferentes espaços, estas atividades podem incluir pinturas murais, desafios de filosofia, exposições, concertos, dramatizações e jogos.


Mas, tão ou mais importante do que o resultado, é o processo de organização, ao longo do qual os alunos finalistas têm a possibilidade de colocar em ação os princípios e as metodologias apreendidos ao longo do tempo em que frequentaram a escola, que, para muitos, correspondeu a uma caminhada com nove anos de duração, desde o pré-escolar ao 2.º Ciclo de escolaridade.


Respeito pelos princípios fundadores


A pedagogia da Torre assenta nas vertentes elencadas, sem descurar a importância das aprendizagens escolares, às quais dá grande relevância. Com a segurança de um saber de experiências feito de quem já integra a equipa há 30 anos, Nuno Leitão reafirma a fidelidade ao projeto fundador, liderado por Ana Maria Vieira de Almeida, mais conhecida por Tana.

 
Foi a esta grande pedagoga que coube o mérito de procurar metodologias pedagógicas inspiradoras para colocar em prática uma visão ampla da educação, baseada na inovação e na ousadia, mas também na consistência e na sensibilidade. E tudo isto tendo como marca pessoal uma grande alma de quem sabe que a educação assenta, antes de tudo o mais, na relação que se estabelece entre os professores e os alunos.


De natureza assumidamente eclética, o projeto pedagógico da Torre continua a assentar nas seguintes metodologias:


Noções de cooperativismo de Eduardo Sérgio: concretizados através de instrumentos concebidos por Celestin Freinet, utilizados pelo Movimento da Escola Moderna para regular a vida social, como o Jornal de Parede ou os mapas de tarefas.


Método criado para a iniciação à leitura e à escrita por Anita Carvalho: parte de uma narrativa baseada no maravilhoso, de acordo com a qual as letras ganham vida e encontram espaço no caderno e no quotidiano de cada criança, longe dos manuais escolares.

Método de George Papi para a Matemática: assente numa abordagem compreensiva desta disciplina, realizada em espiral, concretizada através das minicalculadoras Papi.


Programa de Filosofia para Crianças, de Matthew Lipman: promove o pensamento crítico e favorece a abertura mental que está na base da mobilização e transferência de conhecimentos entre as áreas curriculares.

Importância das expressões para uma educação holística: que integre as diferentes vertentes do desenvolvimento.

A pensar no futuro, o que levam os alunos da Torre?


A partir do legado do projeto fundador, Nuno Leitão aborda, também, a necessidade de uma instituição ser capaz de evoluir para dar resposta às especificidades do mundo atual, revelando a sua preocupação com o lugar ocupado pelos ecrãs interativos, cuja omnipresença torna “mais difícil fazer abstrações, tirar ilações, realizar associações de ideias e desenvolver a capacidade de escuta, que permite refletir”.

 
E, quando se fala em evoluir, não se trata necessariamente de apostar numa educação tecnológica que coloque as crianças à frente do tempo. A ideia pode ser, segundo o diretor pedagógico, a recuperação dos valores simbólicos, universais e transversais a diferentes culturas, tão presentes nos contos tradicionais de tradição oral. “Imaginário” é o nome do projeto que coloca em prática esta recuperação da tradição oral, orientado pela atriz Ana Sofia Paiva, responsável por reavivar o encanto das crianças, desde os 5 aos 12 anos.


No essencial, aquilo que Nuno Leitão gostaria que aos alunos levassem da Torre enquanto marca identitária centra-se na disponibilidade e no prazer de pensar, na capacidade fazer opções refletidas, na curiosidade para conhecer o mundo e a humanidade, na relação com a natureza e nos sentidos despertos para se deixarem maravilhar.

 
Para mais informações, consultar:


https://www.atorre.pt/

A Torre: Uma escola onde os alunos aprendem a pensar