Aprendizagem
Que estratégias podem mobilizar as crianças para ler?
Para aprenderem a ler, as crianças podem mobilizar simultaneamente diversas estratégias, em interação com os seus pares, num processo dinâmico que visa não apenas a descodificação do escrito, mas também o acesso ao seu sentido.
Quais são os modelos de aprendizagem da leitura?
Existem diferentes modelos sobre a aprendizagem da leitura, nomeadamente os ascendentes e descendentes, sendo que o modelo interativo preconiza o recurso a diversas estratégias de leitura, utilizadas simultaneamente e em interação.
Modelos ascendentes: Estes modelos consideram que a leitura implica um percurso linear e hierarquizado que vai de processos primários, como juntar as letras, para processos de ordem superior, relacionados com a atribuição do sentido. Segundo esta conceção, a aprendizagem da leitura tem início com o conhecimento das letras e prossegue com a aprendizagem da correspondência entre as letras e os sons, que permite juntar as letras em sílabas e as sílabas em palavras.
Modelos descendentes: Estes modelos valorizam os processos de ordem superior de acesso ao sentido do escrito, defendendo a leitura global de palavras sem descodificação, a antecipação de novas palavras, tendo em conta o contexto, e a verificação das hipóteses colocadas.
Modelos interativos: Estes modelos defendem uma posição intermédia, afirmando que o leitor utiliza, simultaneamente e em interação, estratégias ascendentes e descendentes. Assim, o ato de ler constitui o produto de processos primários e de processos superiores, como o estabelecimento de correspondência entre as letras e os sons e a decifração de palavras, bem como o reconhecimento imediato de palavras, a antecipação e a confirmação das hipóteses colocadas.
Quais são as estratégias mobilizadas pelas crianças para ler?
De acordo com os modelos interativos, as crianças recorrem, simultaneamente e em interação, a diferentes estratégias para acederem à leitura.
Reconhecimento global de palavras: Há diversas palavras que as crianças conseguem identificar globalmente, sem terem de as descodificar. Estas costumam ser as palavras com maior significado a nível afetivo, como o nome próprio, o nome dos pais ou dos irmãos, as palavras relacionadas com a família, como pai, mãe, avô, avó, irmão, irmã, tio e tia, ou ainda as palavras que surgem mais frequentemente nos textos, como escola, casa, praia, carro ou bicicleta, entre outras.
Muitas vezes diz-se que, quando identificam globalmente as palavras sem descodificação, as crianças estão a “ler de cor”, desvalorizando esta forma de acesso ao escrito. No entanto, a leitura global de palavras pode constituir não só uma forma de acesso ao significado do texto, como também um excelente ponto de partida para a análise das palavras conhecidas, de modo a realizar novas descobertas noutras palavras.
Descobertas: A realização de descobertas corresponde ao momento em que as crianças, perante um texto que está a ser trabalhado, procuram identificar as palavras que já conhecem e realizar descobertas sobre as palavras mais significativas, em interação com os seus pares. É a partir da riqueza e do estímulo dessa interação que, de descoberta em descoberta, vão avançando no conhecimento do código escrito. Cabe ao professor tirar partido das descobertas das crianças para sistematizar e aprofundar os seus conhecimentos sobre a leitura e a escrita, através de diversos exercícios com um nível de complexidade crescente.
Se num texto estiver escrito “Eu fui à praia com o meu pai”, as crianças podem identificar as palavras que reconhecem globalmente, por surgirem noutros textos, como “eu” e fui”. Podem encontrar semelhanças e diferenças nas palavras “pai” e “praia”: começam ambas por “p” e têm as duas o som “ai”, mas “praia” contém mais duas letras do que “pai”. A partir dessas descobertas, podem identificar outras palavras que principiem com “p” ou tenham “ai”, organizando-as em listas de palavras.
Descodificação: Consiste no estabelecimento de correspondência entre as letras e os sons (grafemas/fonemas), que permite descodificar as palavras escritas. O treino desta competência é efetivamente necessário quando as crianças estão a aprender a ler, devendo ser trabalhado, enquadrado pelo objetivo de ler textos com sentido.
Antecipação de palavras: Perante um novo texto, uma das estratégias utilizadas pelas crianças consiste em tentar antecipar as palavras que esperam encontrar, tendo em conta o contexto, mobilizando as estratégias de que dispõem para o fazer e procurando verificar as hipóteses colocadas.
Por exemplo, se um texto tiver como tema a praia, as crianças podem antecipar que vão surgir as palavras mar, areia ou onda. Depois, enquanto procuram ativamente o sentido do texto, tentam identificar as palavras antecipadas, fazendo uso dos seus conhecimentos prévios, de modo a confirmar (ou não) as suas suposições
Sistematização dos conhecimentos prévios: As descobertas realizadas pelas crianças devem ser sistematizadas, por exemplo através da elaboração de listas de palavras que contenham as mesmas sílabas, letras ou ditongos, ou da identificação de diferenças mínimas entre palavras semelhantes, como mapa e mala, ou pato e gato.
Estes são exemplos, entre muitos outros, de tarefas que contribuem para sistematizar a leitura e ajudar as crianças a progredir na aprendizagem com entusiasmo, confiança, persistência e segurança.
Bibliografia:
Alves Martins, M. (2000). Pré-História da Aprendizagem da Leitura. Ispa.
Terrail, J.P. (2025). Petite histoire da la lecture et de son enseignement. Le Bord de L'Eau.
