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Parentalidade

E quando as posições se invertem colocando as crianças no topo da hierarquia?

Imaginemos que na família dos ursos se foi mais longe na alteração do paradigma educativo. Imaginemos que, nesta família, se recuperou a verticalidade na hierarquia familiar, mas… imaginemos que, desta vez, foi ao contrário, com o ursinho a ocupar o lugar cimeiro. E, por fim, que tal imaginarmos as consequências?


Em algumas famílias, a alteração da hierarquia entre os membros da família pode ter ido demasiado longe. Em vez da horizontalidade nas relações entre pais e filhos, nessas famílias recuperou-se a estrutura vertical de hierarquia familiar. Só que, desta vez, já não são os adultos que estão no topo da hierarquia: esse lugar passou a ser ocupado pelas crianças.


Esta subversão das posições na hierarquia familiar acarreta riscos que não são de somenos importância. As relações entre adultos e crianças assentes na verticalização da hierarquia, com as posições invertidas, são responsáveis por situações de omnipotência infantil, nas quais as crianças detêm um poder excessivo sobre os seus pais, exercido até com alguma tirania. Nestas famílias, são os pais que passam a ter receio do poder das crianças, preferindo ceder a contrariar os filhos, de modo a tentar controlar os danos colaterais.


No entanto, ao invés de controlar os danos colaterais, esta atitude temerosa e permissiva mais não faz do que reforçar o poder infantil, mantendo a família refém de um padrão que não é saudável nem tão-pouco positivo para o desenvolvimento das crianças. Quando as crianças percecionam insegurança, fragilidade, hesitação ou falta de assertividade por parte dos adultos, testam incessantemente os limites para perceberem até onde podem ir. Este desafio constante corresponde, frequentemente, a uma tentativa por parte das crianças para que lhes digam onde devem parar.


A necessidade de figuras de referência


Na obra Pais suficientemente bons, o pedopsiquiatra Pedro Strecht alerta para os riscos deste tipo de relações entre pais e filhos: “As relações que favorecem uma grande dependência futura e, com esta, demasiada proximidade física e relacional contêm o risco de colocar a criança num patamar de (quase) igualdade com o adulto, a quem progressivamente começa a contrariar, opondo-se e desafiando, e, por último, a controlar de maneira repetida e patológica”.


Quando tal acontece, apesar de aparentemente as crianças passarem a deter uma posição de força, essa omnipotência acaba por lhes retirar algo de essencial: a referência de figuras parentais com autoridade para as guiar no seu percurso de vida. Reféns do poder infantil, os pais surgem aos olhos das crianças demasiado fragilizados e incapazes de exercer a sua autoridade. Como consequência, as crianças veem-se privadas de limites simbólicos claros e coerentes, de regras elementares de socialização, bem como dos recursos psíquicos necessários para enfrentar a realidade e ultrapassar as dificuldades.


Pedro Strecht alerta para o impacto deste modelo educativo no desenvolvimento de um narcisismo excessivo: “A personalidade em construção centra-se continuadamente no próprio eu e este modelo autocentrado é a base de um futuro narcisismo patológico: não há noção integrada de um teu ou nosso, tudo é aprendido enquanto meu. Também é o ponto de partida para um contínuo desapontamento com qualquer tipo de choque no futuro, onde nada pode parecer suficientemente bom, pois a avidez de continuadamente desejar mais e mais tiraniza o funcionamento interno da pessoa, como torna os mais novos ditadores e controladores dos seus próprios pais”.


A consequência traduz-se num fenómeno que este pedopsiquiatra denomina como “uma das maiores epidemias em saúde mental infantil e juvenil”. Esta epidemia que, de acordo com a sua experiência, afeta um número cada vez maior de crianças e adolescentes, consiste “no prolongamento até à vida adulta de uma posição omnipotente em que a criança impõe a sua vontade, define por si própria, muda ou ignora as regras, testa e fura os limites”.

icon Histórias da vida real

Histórias da vida real

Qualquer semelhança entre este relato e a realidade não é mera coincidência…

No autocarro que ligava o avião ao aeroporto, reinava a maior das confusões. Uma menina de cerca de oito anos sentava-se e levantava-se, e voltava a sentar-se e a levantar-se, para depois se pendurar nas argolas fixadas no teto, dando balanço e deixando-se deslizar, como se de uma trapezista se tratasse, não parecendo importar-se minimamente com os encontrões dados aos passageiros que estavam à sua volta. Enquanto isso, o seu irmão de quatro anos circulava velozmente, de gatas, por entre os pés das pessoas, obrigando-as a desviar-se para não o pisarem.
No meio destas peripécias, a mãe das crianças pedia-lhes que parassem, suplicava, zangava-se e voltava a implorar. Mas o resultado era igual a zero. Era como se os filhos não a ouvissem. Faziam mesmo questão de ignorar ostensivamente as palavras da mãe, continuando a incomodar tudo e todos com a maior desfaçatez. No entanto, a cena não ficou por aqui. Já dentro no aeroporto, enquanto aguardavam pela entrega das malas, a sequela teve novos episódios, com os filhos a fugirem por tudo quanto era lado, enquanto a mãe corria atrás deles, sem qualquer sucesso.
Qualquer semelhança entre este relato e a realidade não é mera coincidência: esta história é verídica e presenciei-a com os meus próprios olhos. O problema é que cenas como estas estão longe de ser únicas. Quem nunca viu este filme, cujos protagonistas são crianças que desafiam a autoridade dos adultos, remetendo os pais a figuras secundárias, com pouca capacidade para serem autores do argumento principal da história da parentalidade?