Parentalidade
E se os ursos precisassem de compreender a diferença entre autoritarismo e autoridade?
Se há que ser cauteloso na distinção entre autoridade e autoritarismo, não há que ter receio de assumir claramente uma hierarquia na relação entre a criança e os adultos responsáveis pela sua educação: uma educação em que não haja autoridade nenhuma acaba por fazer tantos estragos como uma educação demasiado autoritária.
Quem não assistiu já a cenas em que as crianças parecem deter o poder sobre os adultos, dominando tudo e todos em seu redor? Poderemos equacionar muitas hipóteses para justificar episódios semelhantes, mas a explicação mais cabal radica na confusão que, atualmente, muitas vezes prevalece entre autoritarismo e autoridade, que leva a que muitos pais – não se revendo na educação autoritária que tiveram – optem por um modelo educativo excessivamente permissivo.
No entanto, se há que ser cauteloso na distinção entre autoridade e autoritarismo, não há que ter receio de assumir claramente uma hierarquia na relação entre a criança e os adultos responsáveis pela sua educação. Nas palavras da psicóloga clínica Laura Sanches, “não precisamos de associar a palavra hierarquia ao autoritarismo, mas necessitamos de perceber que sem essa hierarquia não temos autoridade”. E mais: é fundamental "encontrar forma de exercer essa autoridade sem autoritarismo, porque é impossível aprender alguma coisa com alguém se não encararmos a pessoa como hierarquicamente superior, pelo menos no campo em que nos quer ensinar".
Isto porque, como clarifica esta psicóloga no livro Como educar crianças desafiantes?, uma educação em que não haja autoridade nenhuma acaba por fazer tantos estragos como uma educação demasiado autoritária. É precisamente por esse motivo que, na sua perspetiva, temos de fazer as pazes com a palavra autoridade, percebendo que é necessário que os nossos filhos nos vejam como hierarquicamente superiores. E essa superioridade não radica no abuso de poder, mas sim na assunção do papel de pais, de pessoas mais velhas, mais vividas e amadurecidas.
Também é esta a posição do psicólogo clínico Gordon Neufeld e do médico Gabor Maté, de acordo com os quais o poder para exercer a parentalidade não tem de estar necessariamente alicerçado na coerção ou na força, residindo na autoridade espontânea para assumir essa tarefa. Nesta perspetiva, “o poder para exercer a parentalidade surge quando as coisas estão na sua ordem natural, sem esforço, sem imposição e sem tensão”.
Pelo contrário, tal como defendem estes especialistas no livro O seu filho precisa de si, é quando nos falta esse poder que recorremos à força: “Quanto mais poder houver por parte de um progenitor, menos força é necessária na educação do dia a dia. Por outro lado, quanto menos poder temos, mais impelidos nos sentimos a elevar a voz, a endurecer o nosso comportamento, a proferir ameaças e a procurar alguma vantagem para fazer com que os nossos filhos cumpram as nossas exigências”.
De acordo com Laura Sanches, a autoridade que precisamos de exercer sobre os nossos filhos necessita de ser temperada com amor, fundada naquilo que denomina como uma sólida base de amor incondicional. A autoridade a que se refere é uma “autoridade amorosa, acolhedora e recetiva”, que “vem de dentro, do que sentimos e exercemos sem medo”. Porém, tal como faz questão de sublinhar, “amar incondicionalmente não significa que nos vamos demitir do nosso papel de orientadores e de líderes dos nossos filhos”.

Reflexão
“Não precisamos de associar a palavra hierarquia ao autoritarismo, mas necessitamos de perceber que sem essa hierarquia não temos autoridade. E precisamos de encontrar forma de exercer essa autoridade sem autoritarismo”.
Laura Sanches
“O poder para exercer a parentalidade não tem necessariamente de estar alicerçado na coerção ou na força: este poder surge quando as coisas estão na sua ordem natural, sem esforço, sem imposição e sem tensão”.
Gordon Neufeld / Gabor Maté
“Quanto mais poder houver por parte de um progenitor, menos força é necessária na educação do dia a dia. Quanto menos poder temos, mais impelidos nos sentimos a elevar a voz, a endurecer o nosso comportamento, a proferir ameaças”.
Gordon Neufeld/Gabor Maté
Laura Sanches
“É impossível aprender alguma coisa com alguém se não encararmos a pessoa como hierarquicamente superior, pelo menos no campo em que nos quer ensinar”.
Laura Sanches
“Hoje em dia, muitas pessoas resistem ao conceito de poder”, conotando esta palavra com algo de negativo, que se confunde com a força”, mas “o poder é absolutamente necessário para a tarefa da parentalidade”.
Gordon Neufeld/Gabor Maté
