Parentalidade
Entrevista: Da felicidade dos contos de fadas à vida real
A psicóloga Joana Pombo reflete sobre o significado da felicidade e a necessidade de as crianças serem ajudadas a lidar com os sentimentos “negativos”, para fruírem de mais momentos felizes e reforçarem as reservas para superarm as circunstâncias mais desafiantes.
1. Na sua opinião, qual o significado da felicidade?
No dicionário, o significado da palavra felicidade é “estado de espírito de quem se encontra alegre ou satisfeito, alegria, contentamento, fortúnio ou júbilo”. Estes termos refletem as condições que envolvem a felicidade, mas que, do meu ponto de vista, não correspondem à totalidade do seu sentido. Penso que nos remetem para o que pode ser a felicidade, ou seja, para o meio, mas nunca para o fim em si mesmo. Na minha opinião, a felicidade está nas pequenas coisas do quotidiano e na perceção que temos das mesmas. Implica a necessidade de um tempo, a participação ativa do sujeito, e a interação tanto com o exterior, que não é controlável, como com o interior, que é controlável.
2. Como psicóloga, como procura ajudar as crianças a sentirem-se mais felizes?
No meu trabalho como psicóloga, procuro ajudar as crianças a lidarem os sentimentos “negativos” − para diminuir a sua intensidade −, através de uma nova relação que lhe permita integrá-los e ultrapassá-los, para que os momentos de felicidade possam surgir com maior frequência. Com as crianças, este trabalho geralmente realiza-se através do jogo ou da brincadeira, porque, nesta fase, o acesso à palavra para explicar o que as faz sofrer ou expressar as suas dificuldades e conflitos internos ainda é insuficiente.
A superação dos conflitos e das dificuldades permite que as crianças ganhem uma motivação intrínseca para se relacionarem e comunicarem com os outros, fruindo de mais momentos de felicidade, mas também as ajuda a serem resilientes e a reforçar as reservas para os momentos desafiantes.
3. A ideia de que podemos ser sempre muito felizes para sempre corresponde à verdade?
Não, de todo. Mesmo quando julgamos que é possível as crianças estarem sempre felizes, tal não corresponde à verdade. Se não enfrentarem a frustração na infância, serão mais infelizes no futuro, pois não serão capazes de se tornar resilientes e flexíveis, nem tão pouco de desenvolver a capacidade de se adaptarem.
4. O divertimento constitui um passaporte para a felicidade?
Na vida, o divertimento e o prazer são fundamentais, mas, no meu entender, os momentos em que as crianças estão aborrecidas e não entregues à satisfação imediata dos seus desejos também são essenciais. É na sequência do aborrecimento que podem surgir pensamentos e momentos criativos, pois o tédio permite explorar algo de novo. Também possibilita que a criança esteja consigo própria e com os seus pensamentos e sentimentos, o que é primordial.
5. As crianças devem ser poupadas aos sentimentos considerados “negativos” para que possam crescer felizes?
As crianças não devem ser poupadas aos sentimentos considerados “negativos”, mas também não devem ser deixadas sozinhas com esses sentimentos. É verdade que os sentimentos “negativos” fazem parte do processo de crescimento, mas devem ser integrados, contidos e suportados pelo adulto. Para crescerem seguras, as crianças precisam de lidar com os limites e de enfrentar a frustração, o que as leva, muitas vezes, a experienciar sentimentos “negativos” durante o seu processo de desenvolvimento.
