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Parentalidade

Num reino muito perto do nosso viviam pessoas que desejavam ser sempre felizes

Era uma vez um reino muito perto do nosso no qual as pessoas desejavam ser sempre felizes. Por estranho que pareça, quanto mais perseguiam esse ideal de felicidade, mais distantes se sentiam do mesmo. Será que, de tanto perseguirem a felicidade, não estariam a cair numa armadilha que, em vez de as aproximar, as afastava do ideal que pretendiam alcançar?


Há muito, muito pouco tempo, num reino muito perto do nosso, havia pessoas que desejavam ser sempre muito felizes… para sempre. Nesse tempo e nesse reino − que, na história da vida real, coincidem com os nossos − as pessoas viviam numa sociedade hedonista, na qual prevalecia uma cultura obcecada com a felicidade. O problema é que, paradoxalmente, quanto mais procuravam a felicidade, menos felizes essas pessoas se sentiam.

 
Perante esta aparente incongruência, há uma pergunta que se impõe: será que, com tamanha valorização da felicidade, as pessoas não estariam a cair na cilada de montarem a si próprias a armadilha da felicidade? No livro com o emblemático título A armadilha da felicidade, o terapeuta Russ Harris explica como na procura da felicidade se monta a armadilha que impede essa mesma felicidade: “A realidade é que o sofrimento faz parte da vida. Mais cedo ou mais tarde, todos teremos de enfrentar uma crise, uma desilusão ou um fracasso. Isto significa que, de uma forma ou de outra, todos vamos experimentar pensamentos e sentimentos dolorosos”. Negando estes sentimentos considerados negativos, “empurram-nos para uma luta que nunca poderemos vencer: contra a nossa própria natureza humana. É essa a luta que monta a armadilha”.

Como se monta a armadilha da felicidade?


Ao contrário do que se poderia pensar, a cilada armadilha-se de cada vez que, em busca da tão desejada felicidade, evitamos ou fugimos dos sentimentos considerados “negativos”. Russ Harris compara a recusa em aceitar e enfrentar a dor com a tentativa de manter uma bola de futebol debaixo de água: “Enquanto a empurramos para baixo, a bola continua submersa. Mas os braços acabam por se cansar. E, no momento em que a soltamos, ela salta imediatamente para fora de água!”. É neste sentido que, no livro A voz que grita por um sentido, o neurologista Viktor E. Frankl afirma que “fechar os olhos perante a realidade não a elimina”.

 
Acontece que este “evitamento experiencial”, em vez de nos aproximar da tão almejada felicidade, parece ter o efeito diametralmente oposto, afastando-nos da meta que pretendíamos atingir. E o que é certo é que, quanto mais nos esforçamos, mais negatividade criamos. Com a insistência nesta atitude, corremos o risco de aumentar aquilo que pretendíamos negar, através do fenómeno denominado por amplificação, explicado por Susan Cain, na obra Le bonheur d’être triste: “Desde o momento em que as emoções são negadas ou ignoradas, tornam-se mais fortes”.

  

O evitamento experiencial não resulta


Em vez de procurarmos evitar ou fugir dos sentimentos considerados negativos, há que reconhecê-los, enfrentá-los e integrá-los, pois, como refere Russ Harris, é praticamente impossível criar uma vida melhor se não estivermos preparados para enfrentar sentimentos menos bons. “A verdade é que temos muito menos controlo sobre os nossos pensamentos e sentimentos do que gostaríamos. O mesmo acontece com sentimentos ‘negativos’, como raiva, medo, tristeza, insegurança e culpa. Existem inúmeras estratégias psicológicas para nos livrarmos desse tipo de sentimentos. Mas, mesmo que desapareçam durante algum tempo, acabam sempre por voltar”.


É por esse motivo que, de acordo com Russ Harris, passar a vida a correr atrás da felicidade resulta, geralmente, numa insatisfação constante: “Na verdade, quanto mais perseguimos os sentimentos de prazer, mais propensos nos tornamos a sofrer de ansiedade e depressão”. Viktor E. Frankl partilha esta visão: “É a própria busca da felicidade que impede a felicidade. Quanto mais fazemos dela uma meta, mais ela nos escapa”. E prossegue: “A felicidade deve ser uma consequência, não deve ser perseguida. A felicidade deve surgir com espontaneidade – e devemos deixar que aconteça. Quanto mais a procurarmos como objetivo, mais o falharemos”.

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Bloco de notas

A ditadura da felicidade

A ideia da felicidade tem vindo a ganhar especial destaque no imaginário coletivo, pelo que não se passa um dia sem que tenhamos ouvido diversas teorias sobre este inesgotável assunto. Este conceito tornou-se tão natural nos dias que correm que colocar este ideal em causa afigura-se uma ideia estranha, senão mesmo temerária.

No entanto, é precisamente isso que fazem Edgar Cabanas e Eva Illouz, autores da obra A ditadura da felicidade. E, se o fazem, não é porque sejam contra a felicidade. Aquilo a que se opõem é à visão redutora, amplamente disseminada, que a ciência da felicidade apregoa.

O tempo começou gradualmente a dar razão aos críticos das teorias da felicidade, provando que nem tudo o que luz na felicidade é ouro, pelo que devemos abordar com cautela as suas promessas tentadoras, assumindo uma perspetiva crítica quanto aos eternos “buscadores de felicidade” e à nova geração de “felicicondríacos”, tal como os denominam os autores desta obra emblemática.