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Parentalidade

O que levou os pais ursos a mudarem de paradigma educativo?

Tendo recebido uma educação autoritária por parte dos avós do ursinho, os pais ursos, com a melhor das intenções, decidiram modificar esse padrão, alterando a relação de poder com o seu filho, de modo a não cometerem os mesmos erros do que os seus progenitores.  Mas será que, se passarem do 8 ao 80, o resultado é positivo para o ursinho?


Se os pais ursos tivessem tido filhos no tempo dos avós ursos, provavelmente teriam sido pais mais cedo e teriam tido mais ursinhos. Confrontados com a necessidade de sustentar e educar mais filhos, teriam tido menos tempo para se interrogarem sobre o exercício da parentalidade, seguindo os modelos vigentes na época, baseados na hierarquização das relações familiares e na autoridade dos adultos.


Mas, se fosse na atualidade, os pais ursos esperariam até mais tarde para constituírem família, procurando reunir as condições ideais para planearem uma gravidez muito desejada. Para compatibilizarem o exercício da parentalidade com as exigências profissionais de ambos os progenitores, possivelmente os pais ursos optariam por só terem um filho ou, no máximo, dois, a quem tentariam dar a melhor educação possível, para que fossem bem-sucedidos na vida.


Quando finalmente decidissem ter um ursinho, os pais ursos partiriam de expetativas muito elevadas quanto ao exercício da parentalidade, procurando obter o máximo de informação disponível para exercerem o seu novo papel, se possível, na perfeição. Com a intenção de serem uns bons pais, inspirar-se-iam nas novas correntes de parentalidade, de acordo com as quais privilegiariam um estilo educativo menos autoritário, estabelecido num patamar de maior igualdade com o filho.


E se transpusermos esta ficção para a realidade?


Se transpusermos esta ficção para a realidade, verificamos que, em grande medida, a ficção corresponde… à realidade. De facto, nas últimas décadas, o balanço de forças entre as gerações foi alterado, com muitos aspetos positivos, que permitiram tornar a relação entre os adultos e as crianças mais próxima, explicitamente afetuosa e cúmplice, favorecendo um maior envolvimento dos adultos no crescimento das crianças.

 
O enfraquecimento do estilo autoritário, no qual a figura paterna desempenhava uma função preponderante, mas distante, conduziu a uma maior participação do pai na educação das crianças, contribuindo para uma divisão de tarefas mais equitativa entre ambos os progenitores, favorável para todos os membros da família.

 
A passagem de uma educação mais autoritária para um estilo educativo mais tolerante e compreensivo reforçou o papel da criança na família, conferindo-lhe maior protagonismo e poder de iniciativa. Mas, na tentativa de se demarcarem da educação que receberam, alguns pais podem tender a cair precisamente no extremo oposto, passando do 8 ao 80.


Quando esta alteração é demasiado radical, pode gerar alguns equívocos, decorrentes da excessiva horizontalidade da relação entre gerações, que resulta, muitas vezes, numa permissividade exagerada na educação infantil. Esta questão da permissividade não é nova e já fez correr muita tinta, nomeadamente desde o tempo do pedopsiquiatra João dos Santos.

 
No programa da Rádio Comercial Se não sabe porque é que pergunta?, o jornalista João Sousa Monteiro colocou-lhe a seguinte questão: “Uma tolerância excessiva por parte dos pais não poderá ser tão destruidora para a criança como uma falta importante e continuada de amor, de atenção? A tolerância excessiva não pode ser sentida pela criança como uma espécie de vácuo, ambígua, porque os pais de facto estão lá, mas não estão?”. 


As palavras de João dos Santos são sábias e tornaram-se mais atuais do que nunca: “Os pais excessivamente bons são tão perigosos para a segurança da criança como os pais excessivamente maus. Estes extremos têm como resultado uma espécie de castração, quer dizer, de falta de poder. A criança tem necessidade de se confrontar com os pais”.

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Bloco de notas

Perda de autoridade nas famílias

Na obra Como educar crianças desafiantes, a psicóloga clínica Laura Lanches explica claramente o que está por detrás do fenómeno da perda de autoridade nas famílias: “Recuando algumas gerações, a autoridade era um aspeto fundamental da parentalidade. Esta era muitas vezes exercida pelo pai, ficando a mãe mais associada ao amor e carinho. E assim, muitas pessoas que foram criadas sob o chapéu da autoridade − e sentiram os estragos desse modelo educativo − passaram a querer educar os filhos de uma forma mais leve e recusaram a presença dessa autoridade, defendendo que as crianças devem ser tratadas com iguais”, o que, na sua opinião, “acaba por provocar mais estragos do que já se imaginou”.