Parentalidade
E se o ursinho precisasse de pais que assumissem o seu papel na hierarquia familiar?
Na infância dos pais ursos, eram os avós do ursinho que estavam no topo da estrutura intergeracional, numa posição hierarquicamente superior. Quando os ursos foram pais, desejaram alterar o anterior paradigma educativo, começando por tornar a estrutura hierárquica da família mais horizontal, de modo a colocarem as duas gerações em pé de igualdade.
Na sua essência bem-intencionados, estes ideais de igualdade enquadram-se nas correntes de parentalidade positiva ou consciente, que surgiram com o objetivo de valorizar a infância, tratando as crianças com o respeito e a dignidade que merecem, por oposição a uma educação autoritária, realizada com base em treinos, punições e recompensas.
Sem lhes retirar o mérito em diversos pontos fundamentais, estas opções educativas podem estar associadas a alguns excessos, nomeadamente no que respeita à dificuldade em reconhecer a importância das noções de hierarquia e de autoridade. As consequências estão à vista, traduzindo-se numa crescente incapacidade, por parte dos pais, em fazer cumprir regras e em estabelecer limites educativos.
Mas, antes de tudo o mais, estas visões podem estar assentes em determinados equívocos, não revelando um conhecimento aprofundado sobre o desenvolvimento infantil, nem tão-pouco acerca das verdadeiras necessidades emocionais de uma criança. É esta a opinião da psicóloga clínica Laura Sanches, defensora de que “a ideia de igualdade, que vem muito da ideia de uma sociedade mais justa e respeitadora, não faz grande sentido quando aplicada às crianças”.
Como menciona na obra Como educar crianças desafiantes, “por muito que seja conveniente a alguns defensores da causa da igualdade entre adultos e crianças, as crianças não são adultos em miniatura”, o que, no seu entender, não significa que não tenham o mesmo valor ou que não mereçam o mesmo respeito: “Claro que uma criança precisa de ser tratada com a mesma dignidade de um adulto, mas esse respeito começa justamente pelo reconhecimento das suas diferenças”.
Necessidade de orientação e proteção
Uma das diferenças das crianças, que é estrutural, radica na sua necessidade de proteção e de orientação por parte dos adultos. Essa necessidade só pode ser assegurada desde o momento em que os pais assumam o papel que lhes cabe naturalmente na hierarquia familiar, precisamente pelo facto de serem adultos e de terem experiência de vida. “É na capacidade de nos assumirmos como adultos responsáveis na vida das crianças que radica o nosso poder para as educar”, afirma Laura Sanches, destacando que “pela ordem natural das coisas, estamos na posição de ensinar e de orientar e nunca o poderíamos fazer se não tivéssemos percorrido já um longo caminho”.
Daniel Coum, psicólogo clínico e diretor da Associação Parental, chama a atenção para aquilo que denomina como uma forma de “violência invisível”, que consiste em “desrespeitar a necessária assimetria na relação entre pais e filhos, fazendo da criança um ‘parceiro’ na educação a que é submetida”. Na sua opinião, esta forma de violência consiste em negar a realidade estrutural da criança que, por definição, ainda não está construída. É neste sentido que questiona: “O que é uma criança ‘parceira’ senão uma criança considerada prematuramente como um adulto? Ao pedir prematuramente às crianças que assumam a responsabilidade de gerir as suas próprias emoções, os adultos negam-lhes precisamente aquilo que as caracteriza: a sua imaturidade e a sua dependência dos outros”.
Importância de uma hierarquia natural entre pais e filhos
Perante os argumentos apresentados, os pais não necessitam de ter receio de assumirem o papel de proteção e de orientação que lhes compete por inerência, mesmo que essa essa posição não vá ao encontro da mensagem difundida pelas novas correntes de parentalidade. Como salienta Laura Sanches, apesar de, atualmente, a existência de uma relação hierárquica entre pais e filhos poder ser malvista por muitas das correntes alternativas de educação, “a verdade é que precisa de existir uma hierarquia natural entre pais e filhos”.
Na mesma linha, o psicólogo clínico Gordon Neufeld e o médico Gabor Maté, no livro O seu filho precisa de si, reconhecem que “hoje em dia, muitas pessoas resistem ao conceito de poder”, conotando esta palavra com algo de negativo, que se confunde com a força. Estes autores não poderiam ser mais claros quando defendem que, pelo contrário, “o poder é absolutamente necessário para a tarefa da parentalidade” e a explicação que apresentam para esta questão também não poderia ser mais simples: “Porque temos responsabilidades”. Na sua perspetiva, “a parentalidade sempre exigiu poder para cumprir as responsabilidades que dela advêm”.
E que responsabilidades são essas que advêm do exercício da parentalidade? Laura Sanches utiliza uma metáfora altamente elucidativa quando refere que não podemos entregar às crianças o comando de um barco que ainda não têm capacidade para navegar, porque são demasiado pequenas e inexperientes para o efeito: “Se o fizermos, ficarão perdidas e indefesas ao sabor das ondas, sem capacidade para lidar com as tempestades. Temos de ser nós a comandar, sem medo, essa posição hierárquica que nos permite mostrar-lhes como navegar e crescer nesse mar”.

Bloco de notas
No livro Caos Calmo, de Sandro Veronesi, a morte súbita da mulher deixa o protagonista a braços com a educação da filha em idade escolar, que passou a vigiar, durante o dia, permanecendo dentro do carro estacionado em frente à escola.
Para evitar maior sofrimento à filha e para que, apesar da dor, esta seja feliz, o pai tenta compensá-la, não a contrariando e deixando-a fazer tudo o que quer. Desta atitude é exemplo uma cena no final do livro, em que o pai assiste à filha a encharcar-se em poças de água, sem fazer nada para o impedir.
Toda molhada, a criança diz ao pai algo deste género: “Tu és o pai e eu sou a filha. Tu tens de zelar por mim e impedir que me molhe toda nestas poças de água, porque se não cuidares de mim eu posso adoecer”.
No fundo, o que a filha pretende dizer ao pai é que ele tem de desempenhar o seu papel de adulto para que ela possa continuar a ser criança.
