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Aprendizagem

Porque é que as crianças aprendem a fazer “contas em pé” mais tarde?

Ao contrário do tempo dos pais, que quando eram alunos começavam a fazer “contas em pé” no início da escolaridade, existem vantagens em introduzir os algoritmos mais tarde. Saiba quais são.


Não seria mais simples aprender a fazer “contas em pé” mais cedo?


As vulgarmente denominadas “contas em pé" correspondem aos algoritmos da adição, da subtração e da multiplicação, já que o algoritmo da divisão obedece a outra lógica. Enquanto no tempo dos pais dos alunos que frequentam atualmente a escola os algoritmos da adição e da subtração começavam a introduzidos no início da escolaridade, existem vantagens em introduzir os algoritmos mais tarde.


Esta é uma questão que, compreensivelmente, suscita interrogações nos pais e, quando os filhos levam trabalhos de casa de Matemática, muitos não resistem a ensinar-lhes a “conta em pé” indicada para resolver o problema em causa. Mas, apesar de parecer aparentemente mais simples e até eficaz fazer a “conta em pé”, o adiamento da aprendizagem dos algoritmos pode ter diversas vantagens.


A opção de adiar a aprendizagem dos algoritmos não está relacionada com questões de simplicidade ou de eficácia. Assenta em duas razões que não são de somenos importância: a primeira consiste em dar prioridade ao desenvolvimento do cálculo mental; a segunda incide na valorização da abordagem dos algoritmos baseada na compreensão.

 
Esta abordagem dos algoritmos baseada na compreensão, ao mesmo tempo que torna os procedimentos explícitos e promove a aprendizagem recorrendo a materiais manipuláveis, potencia a oportunidade de ampliar o conhecimento das crianças sobre o sistema de numeração de posição decimal, que é precisamente aquele que utilizamos.


O adiamento da aprendizagem dos algoritmos também permite que os alunos adquiram uma maior consciência da noção de quantidade associada aos números, enquanto trabalham com números mais “próximos”. Quando começam a lidar com números maiores, as operações tornam-se bem mais complexas, dificultando (mas não impedindo) o recurso ao cálculo mental. É chegada a altura de recorrer aos algoritmos para conseguir operar com números maiores.

Porque é importante o desenvolvimento do cálculo mental?


Quando os algoritmos – vulgarmente conhecidos como “contas em pé” – são introduzidos precocemente, os alunos passam a dispor de um procedimento para realizar as operações matemáticas, que reduz a necessidade de recorrer ao cálculo mental. Assim, acabam por não desenvolver tanto o cálculo mental, com as diversas estratégias de cálculo que o suportam.

 
Digamos que, desta forma, se queima uma etapa muito importante ao nível das competências matemáticas. Mas não só. Também se passa ao lado de uma oportunidade de desenvolvimento cognitivo, já que o recurso ao cálculo mental é altamente estimulante deste ponto de vista. Em sentido figurado, costumo dizer aos meus alunos que o cálculo mental é a “ginástica do cérebro” e que as estratégias de cálculo fortalecem os “músculos da inteligência”.


Por outro lado, como cada criança recorre a diferentes estratégias de cálculo, é muito interessante a partilha do processo que utilizaram. Além de desenvolver a comunicação matemática, recorrendo a uma linguagem proximal, este diálogo permite que as crianças se apropriem das estratégias de cálculo dos colegas, enriquecendo o seu “reportório” de possibilidades.


Quando as crianças têm oportunidade de desenvolver as estratégias de cálculo desde cedo, numa altura em que o seu raciocínio tem grande plasticidade, tornam-se expedidas no cálculo mental e surpreendem-nos, muitas vezes, com a rapidez com que fazem os cálculos e também com a complexidade das estratégias que utilizam, com uma ousadia e segurança crescentes.

 
Esta diversidade de estratégias de cálculo mental é relevante para as situações do dia a dia em que necessitamos de recorrer ao cálculo mental, nos momentos em que − sem termos papel e lápis à mão − nos dá muito jeito sermos capazes de fazer os cálculos necessários “dentro da nossa cabeça”, mesmo que os valores estimados sejam aproximados.



Porque é que as crianças aprendem a fazer “contas em pé” mais tarde?