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Parentalidade

Porque é que o Peter Pan tem de enfrentar o Capitão Gancho?

Eis uma boa pergunta: porque é que o Peter Pan tem de enfrentar o Capitão Gancho? Ou dito de outra forma, porque é que o Peter Pan não fica sossegado na Terra do Nunca, onde pode permanecer criança e ser muito feliz para sempre? No reino da fantasia, esta pretensão poderia ser viável, mas na vida real o amadurecimento é relevante.


Na vida real, o processo de amadurecimento tem um papel determinante a desempenhar, correspondendo à passagem da infância para a idade adulta. No entanto, temos vindo a assistir a uma progressiva dificuldade no processo de amadurecimento das crianças, com a manutenção de comportamentos que, sendo ajustados na educação pré-escolar, deixam de o ser na transição para o 1.º Ciclo.

Na obra O seu filho precisa de si, o psicólogo clínico Gordon Neufeld e o médico Gabor Maté dão a esta dificuldade em amadurecer o nome de “síndroma pré-escolar”, afirmando que esta abrange inúmeras crianças que já ultrapassaram em muito a idade pré-escolar. Mas, no seu entender, não são apenas as crianças que são afetadas: esta síndroma chega a observar-se em adolescentes e em adultos que, por não atingirem a maturidade, não conseguem ser indivíduos independentes, automotivados, capazes de lidar com as suas necessidades emocionais e de respeitar as dos outros.

Atribuindo grande relevância ao processo de amadurecimento, Neufeld e Maté valorizam especialmente aquilo a que chamam funcionamento integrador. Mas esta fase corresponde à segunda etapa de um processo que, segundo estes especialistas, se inicia com o processo de divisão e prossegue com o funcionamento integrador.

Fases do processo de amadurecimento

• Primeira fase: Processo de divisão
Caracteriza-se por um processo de divisão, durante o qual os elementos da consciência – pensamentos, sentimentos, impulsos, valores, opiniões, preferências, interesses, intenções e aspirações − vão sendo separados, até se tornarem distintos e independentes.

• Segunda fase: Funcionamento integrador
Consiste na capacidade de juntar, em simultâneo, aspetos distintos da consciência, como perceções, sensações, pensamentos, sentimentos e impulsos, sem se confundir nos pensamentos nem ficar paralisado nas ações. Esta fase torna a criança capaz de aguentar sentimentos mistos, ao mesmo tempo, o que tem um enorme impacto de transformação na sua personalidade, que se reflete no seu comportamento, tornando-o mais adaptado. As características da infantilidade, como a impulsividade e o egocentrismo, desaparecem e começa a surgir uma personalidade muito mais equilibrada.

A capacidade de adiar a recompensa


Na linha de Neufeld e Maté, a psicóloga clínica Laura Sanches defende que, para que a aprendizagem se processe da melhor forma, é fundamental desenvolver a capacidade de controlar os impulsos e de tolerar sentimentos opostos. Como refere na obra Como educar crianças desafiantes?, para que as crianças consigam fazê-lo, necessitam de “perceber que pode ser difícil aprender determinadas coisas, mas que, ao mesmo tempo, irá ser gratificante, depois de ultrapassadas certas etapas.”
 
Contudo, quando ainda estão muito apegadas às prerrogativas da primeira infância, reféns da “síndroma pré-escolar”, é difícil para as crianças adiar a vontade de brincar e ter a capacidade de estabelecer metas, assumir responsabilidades e definir compromissos, bem como investir em tarefas que exijam da sua parte empenho, concentração, esforço e persistência.

Para ultrapassarem esta fase, é necessário que as crianças deixem para trás as prerrogativas da primeira infância, como o egocentrismo e a impulsividade, antes de caminharem em direção à segunda infância, adquirindo gradualmente uma maturidade que lhes permita concentrarem-se nas tarefas essenciais à aprendizagem.

É que, mesmo quando a aprendizagem é significativa e dá resposta aos interesses das crianças, as tarefas associadas à mesma nem sempre são, por natureza, prazerosas e divertidas. E, por mais que queiramos tornar as atividades apelativas e motivadoras, há sempre uma quota-parte de esforço que está inevitavelmente do lado do sujeito que aprende.
 
Para que uma criança possa amadurecer e progredir na aprendizagem, tem de ser capaz de compreender que nem sempre é possível fazermos tudo quanto queremos, quando queremos. Por vezes, por um bem maior, até poderemos ter de fazer coisas que não nos apeteçam tanto no momento para que, no futuro, possamos colher frutos mais belos.


icon Reflexão e ação

Reflexão e ação

Para ajudar as crianças a amadurecer

Tempo para habitar na Terra do Nunca

Para desejarmos sair da Terra do Nunca, temos de estar saciados da infância. É por esse motivo que a infância não pode ser vivida à pressa, com o tempo demasiado preenchido com atividades que colidam com a necessidade de as crianças terem tempo livre para brincar. Tal como salienta Carlos Neto, na obra Libertem as crianças, “a infância só se vive uma vez e, por isso, tem de ser vivida com toda a profundidade”. No entanto, ter tempo para habitar na Terra do Nunca não significa ficar a viver nessa ilha para sempre.


Viagens de ida e volta à Ilha Encantada


Sair da Terra do Nunca não significa que não se possa regressar. Não só pode, como deve! Para não ceder ao dogmatismo das verdades absolutas nem se deixar vencer pela resignação, as viagens de ida e volta à Terra do Nunca são muito retemperadoras e, ao mesmo tempo, inspiradoras para as crianças que observam esse modelo flexível de maturidade. Os pais que sabem regressar à Terra do Nunca constituem um bom modelo para os seus filhos, na medida em que sabem manter a jovialidade sem transmitirem uma ideia assustadora da maturidade, baseada na resignação e na capitulação.

Dar-se como modelo de adulto


Apesar de conhecerem o caminho para ir e voltar da Terra do Nunca, os adultos de referência das crianças devem apresentar-se como modelos confiáveis, estruturados e consistentes, que transmitam segurança aos mais novos. É necessário que os adultos avancem no seu próprio processo de amadurecimento para ajudarem as crianças a crescer. Nunca é demais salientar que os pais não têm como missão assumir o papel de melhores amigos dos filhos. Da geração dos adultos, aquilo de que as crianças precisam é de pais, avós ou professores que assumam a responsabilidade de as ampararem e guiarem.

Harmonizar as componentes do desenvolvimento


Para que as crianças se desenvolvam de forma harmoniosa, há que evitar a sobrevalorização da componente cognitiva, em detrimento das restantes componentes (comportamental, social e emocional). Além de não favorecer o desenvolvimento harmonioso da criança, a longo prazo esta polarização educativa não contribui para o desenvolvimento do domínio sobrevalorizado, já que a imaturidade demonstrada noutros aspetos pelas crianças tende a colidir com a necessidade de desenvolverem atitudes consentâneas com a aprendizagem.

Pensar com a sua própria cabeça


No opúsculo O que é o Iluminismo?, Kant definiu a maturidade como o movimento da razão emancipando-se da imaturidade pela qual é responsável. Em consonância, há que desenvolver junto dos mais novos a capacidade preconizada por este filósofo: a audácia de pensar por si mesmo. Para esta tarefa de uma vida, não há receitas. O que pode existir é disponibilidade, coragem, lucidez e vontade de dar início a um processo que nunca termina. Se as crianças forem desafiadas a pensar com a sua própria cabeça desde pequenas, já levam um bom avanço!