Saltar para conteudo Mapa do site

Parentalidade

Quais os desafios do Mr. e da Mrs. Darling do século XXI para ajudar os filhos a crescer?

Se o Mr. e a Mrs. Darling vivessem no século XXI, que modelo educativo escolheriam para educar os seus filhos? Não é difícil imaginar que, depois de quase soçobrarem perante tanta informação, recusariam um estilo autoritário e privilegiariam a via da compreensão, da negociação e do diálogo. Influenciados pelas teorias vigentes, elegeriam um modelo educativo impregnado de valores juvenis.


Se o Mr. e a Mrs. Darling entrassem numa máquina do tempo e viessem parar ao século XXI, em vez de terem três filhos, provavelmente só teriam um ou, no máximo, dois. Provavelmente teriam os filhos mais tarde, para poderem concluir os estudos, progredir nas suas carreiras profissionais e ter novas experiências de vida, compatíveis com ideais de vida que privilegiassem a eterna juventude.

Quando decidissem conscienciosamente que estava na altura de terem filhos, provavelmente o Mr. e a Mrs. Darling iriam investir muito na sua educação, começando por recolher informação quanto aos princípios educativos mais adequados para promover o desenvolvimento das crianças e contribuir para a sua felicidade.

Mas como, no século XXI, a informação disponibilizada é tanta e, por vezes, tão contraditória, o Mr. e a Mrs. Darling poderiam, provavelmente, sentir-se a soçobrar perante tantas teorias em torno da parentalidade, de preferência positiva. Confrontados com ideais difíceis de atingir na vida real, os Darling poderiam sentir a sua confiança parental abalada.

Mas uma coisa, provavelmente, seria certa para o Mr. e a Mrs. Darling: saberiam que queriam dar aos seus filhos uma educação diferente daquela que tinham recebido dos seus pais, mais próxima, afetuosa e cúmplice. Para tal, recusariam um modelo educativo autoritário e procurariam privilegiar a via da compreensão, da negociação e do diálogo na relação com as crianças.

Ao recusarem um modelo educativo mais rígido, os Darling – com a melhor das intenções – poderiam, provavelmente, cometer alguns excessos no que respeita à definição de regras e de limites. Estes excessos poderiam ter como consequência uma maior permissividade na educação dos seus filhos, conducente à manutenção de comportamentos que poderiam não ser os mais favoráveis para os ajudar a ultrapassar os desafios do crescimento.

Aquilo que o Mr. e a Mrs. Darling, provavelmente, não poderiam saber é que, após a viagem na máquina do tempo, não estariam sozinhos na sua demanda. Nos anos vinte do século XXI, a disseminação de modelos educativos como aquele que escolheram pode ser explicada pela alteração do paradigma vigente.


Sociedade impregnada de valores juvenis

A alteração do paradigma educativo traduz-se numa excessiva valorização da estrutura arquetípica que o psiquiatra Carl Jung denominou como puer, associando-a ao arquétipo da criança, que se opõe ao arquetípico senex, baseado no velho. Relacionadas com expressões humanas de vivência do tempo, estas estruturas arquetípicas, quando equilibradas, contribuem para uma vivência positiva; porém, quando polarizadas, são vividas de forma negativa.
 
De acordo com a psicóloga e analista junguiana, Dulcinéa Monteiro, a sociedade atual está impregnada dos valores puer em todos os seus aspetos, desde a alimentação, ao vestuário, à estética, aos comportamentos e também à educação. “Podemos, numa análise da cultura atual, dizer que saímos de uma época de dominância dos aspetos negativos do senex (rigidez e autoritarismo) e caímos na outra polaridade, o cultivo exacerbado dos valores do puer (culto da eterna juventude e beleza física, falta de limites e autoridade, pressa e hedonismo, entre outros)”, clarifica no livro Puer-Senex: dinâmicas relacionais.  


Esta polarização centrada nos valores puer atualmente está de tal forma exacerbada que, nas palavras do autor Robert Bly, a imaturidade se tornou endémica à nossa sociedade. Como consequência, “as pessoas não se dão ao trabalho de crescer”, pelo que nos tornámos “todos peixes num aquário de semiadultos”.


Segundo o psicólogo James Hillman, cujo trabalho incidiu sobre a psicologia arquetípica, as famílias com características puer têm dificuldade em assimilar e, consequentemente, em transmitir os valores senex. Relacionados com a imposição de limites, estes valores são, na perspetiva deste psicólogo, uma expressão de amor e de cuidado, representando uma função paterna essencial para a estruturação do ego: “O que fundamentalmente falta na estrutura puer é o contingente psíquico para refrear, conter, reter, estancar, de modo a gerar um momento de reflexão”.


Nesta linha, a psicóloga Dulcinéa Monteiro defende a necessidade de “resgatarmos o significado arquetípico do senex”. É que, quando excessivamente polarizado, o arquétipo puer tende a negar e a invalidar o seu polo oposto. Assim, importa recuperar, através da educação, as características do senex positivo, repolarizando este polo, de modo a promover o desenvolvimento de uma personalidade integrada.

Não obstante, no livro já citado, a psicóloga e analista junguiana Helena Azevedo Santos salienta que, mesmo numa sociedade com características puer, há muitas famílias que conseguem proporcionar aos seus filhos referências importantes, integrando os dois polos no seu estilo educativo. Nestas famílias, se por um lado há ordem, disciplina, responsabilidade e limites, por outro lado há abertura para o novo, para a criatividade, a flexibilidade e, principalmente, para o afeto.
icon Sabia que...

Sabia que...

Os arquétipos puer e senex são complementares


Segundo Carl Jung, o puer e o senex possuem como referência os arquétipos do jovem e do velho, mas, mais do que corresponderem à idade literal das pessoas, consistem nas expressões humanas da vivência do tempo. Sendo dual, o binómio puer-senex funciona como os dois lados da mesma moeda, não devendo existir um sem o outro, na medida em que são complementares.
Quando estas duas polaridades estão integradas, vivencia-se o eixo puer-senex positivo; ao invés, quando polarizados, são experienciados de forma negativa, traduzindo-se no eterno jovem ou no velho senil.
Os problemas surgem quando se cristaliza na unilateralidade de um destes polos, em detrimento de um movimento que possibilite a integração de ambos: o novo necessita da experiência do velho, enquanto este precisa do dinamismo e da criatividade do jovem.

Características do puer positivo:
• Entusiasmo;
• Espontaneidade;
• Curiosidade;
• Criatividade;
• Liberdade;
• Abertura ao novo.

Características do senex positivo:
• Experiência;
• Sabedoria;
• Compreensão;
• Reflexividade;
• Responsabilidade.

Características do puer negativo:
• Irresponsabilidade;
• Imediatismo;
• Irrealismo;
• Hedonismo;
• Egocentrismo;
• Falta de limites.

Características do senex negativo:
• Rigidez;
• Autoritarismo;
• Arrogância;
• Negatividade;
• Falta de abertura à novidade.