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Parentalidade

Quando as crianças permanecem com um pé dentro e outro fora da Terra do Nunca

Nesta época que tanto valoriza a infância, as crianças veem-se confrontadas com mensagens contraditórias que, em alguns domínios, favorecem o amadurecimento e, noutros, o retardam. Estas mensagens contraditórias induzem um crescimento a duas velocidades, responsável por uma desarmonia entre as diversas dimensões do ser, que necessitam de ser reequilibradas.


Mais de um século depois da publicação da história intemporal do Peter Pan, coexistem dois movimentos, diametralmente opostos, relativos ao amadurecimento das crianças: um que as insta a abandonar rapidamente a Terra do Nunca; e outro que insiste para que permaneçam o mais tempo possível na companhia da criança que não queria crescer e dos Meninos Perdidos.
 
De acordo com o primeiro movimento, do ponto de vista cognitivo estimulamos as crianças a saírem rapidamente da Terra do Nunca, com o objetivo de maximizarmos as suas oportunidades de aprendizagem e potenciarmos a sua performance a nível intelectual. Com o objetivo de as prepararmos para terem sucesso numa sociedade competitiva, estimulamo-las precocemente para que adquiram conhecimentos e sobreocupamos o seu tempo com excesso de atividades, curriculares e extracurriculares.
 
Em linha com o segundo movimento, do ponto de vista comportamental, social e emocional, desejamos mantê-las durante o máximo de tempo possível no aconchego da Terra do Nunca, onde, na companhia dos Meninos Perdidos, as incentivamos a gozarem das prerrogativas da primeira infância durante o máximo de tempo possível.

Nesta época de baixa natalidade, as crianças são muito investidas, o que se traduz numa valorização da infância que, se for excessiva, pode conduzir a um prolongamento da mesma a nível comportamental, com a perduração de hábitos como o uso da fralda, do biberão ou da chucha até demasiado tarde. Com o pretexto de que cada criança tem o seu ritmo e há de evoluir a seu tempo, há alunos que, na idade de aprender a ler, acabaram praticamente de largar a chucha para dormir.

De acordo com estas prerrogativas, criamos crianças demasiado dependentes dos adultos até mais tarde do que seria suposto, com dificuldade em assegurar questões de autonomia pessoal, como vestir e despir, calçar e descalçar, tomar banho e lavar os dentes, bem como comer à mesa e adormecer sozinhas.


Impacto no desenvolvimento social e emocional


Se não habituamos as crianças a tratarem de si próprias, desenvolvendo progressivamente uma autonomia adequada à idade, ainda menos as preparamos para participarem nas tarefas da vida familiar, contribuindo, dentro da medida das suas possibilidades, para o bem comum.
 
Desta forma, as crianças habituam-se a que tudo lhes seja servido de bandeja, sem que tenham de colaborar, de forma consistente, nos afazeres quotidianos. Esta prerrogativa não só sobrecarrega os adultos, como desresponsabiliza as crianças, que crescem a julgar que tudo lhes é devido, ao princípio porque são crianças e, mais tarde, quando já não são crianças, porque foram habituadas a que assim seja quando eram mais pequenas.
 
Do ponto de vista social, procuramos proteger as crianças das frustrações e dos conflitos, fazendo por evitar as situações que as contrariem ou lhes causem desconforto. Com este intuito, tentamos satisfazer os seus desejos e, sempre que possível, ir ao encontro das suas expetativas. Por outro lado, tendemos a intervir prontamente nas desavenças com os pares, com o intuito de eliminar ou, pelo menos, de controlar a vivência de sentimentos considerados “negativos”.

Ao pretendermos poupar as crianças à vivência de sentimentos considerados “negativos”, não promovemos o seu desenvolvimento a nível emocional, que implica aprender a lidar com toda a gama de emoções, tanto com as consideradas “positivas” (como a felicidade, a alegria, a coragem ou a generosidade), como com as encaradas como “negativas” (como a tristeza, a frustração, o medo ou a desilusão).
 
Crescer a duas velocidades

A coexistência de dois movimentos contraditórios a nível educativo − com um pé dentro e outro fora da Terra do Nunca − é passível de provocar uma desarmonia no desenvolvimento infantil, induzindo um crescimento a duas velocidades. As consequências desta desarmonia chegam a ser desconcertantes, dando origem a crianças que ora evidenciam comportamentos de “meninos crescidos” ora se comportam como “meninos pequeninos”.
 
Este desalinhamento torna-se deveras interpelador quando vemos crianças que sabem tudo sobre galáxias longínquas, mas não conseguem realizar tarefas simples como atar um par de sapatos; que conhecem de trás para a frente e da frente para trás os nomes de todos os dinossauros, mas não vão à casa de banho com autonomia; que utilizam com desenvoltura um smartphone, mas não são capazes de manusear os talheres com destreza.

Mas o mais paradoxal é que esta polarização educativa − se não favorece os domínios comportamentais, sociais e emocionais – a longo prazo também não contribui para o desenvolvimento do domínio cognitivo, acabando por interferir no desenvolvimento do domínio sobrevalorizado. Este fenómeno explica-se pelo facto de a imaturidade demonstrada pelas crianças colidir com a necessidade de desenvolverem atitudes consentâneas com a escolaridade, que lhes permitam enfrentar, com sucesso, os desafios colocados pela aprendizagem.

Em contraciclo com a imaturidade evidenciada pelas crianças, a exigência curricular tem vindo a aumentar nos primeiros anos de escolaridade, nas diversas áreas curriculares, mas especialmente na área da Matemática. Há conteúdos, como por exemplo os números fracionários, que passaram a ser introduzidos bem mais cedo do que anteriormente, começando a ser trabalhados no 2.º ano de escolaridade. Esta exigência pressupõe não só maturidade a nível cognitivo para conseguir compreender conteúdos mais complexos e abstratos, mas também uma maior capacidade de concentração e de trabalho para adquirir e consolidar os novos conhecimentos.

icon Reflexão e ação

Reflexão e ação

Competências a desenvolver à medida que as crianças crescem

Domínio comportamental

• Assegurar as tarefas relacionadas com a higiene pessoal;
• Vestir-se e despir-se com autonomia;
• Calçar e a atar o calçado;
• Comer com autonomia e manusear os talheres.

Domínio social

 
• Tomar conta dos seus pertences;
• Arrumar os seus brinquedos;
• Manter o seu quarto organizado;
• Colaborar nas tarefas domésticas;
• Respeitar as regras de boa convivência
• Ser atencioso para com os outros.

Domínio emocional


• Gerir os conflitos interpares, com suporte dos adultos;
• Identificar as emoções e aprender a lidar com os sentimentos considerados “negativos”;
• Lidar com a frustração e aprender a superar a adversidade;
• Refrear a impulsividade e desenvolver a empatia.