Famílias
Será que estamos a fragilizar as crianças?
As crianças são antifrágeis por natureza – quem o diz são Greg Lukianoff e Jonathan Haidt, autores da obra A Infantilização da Mente Moderna. Esta antifragilidade significa que necessitam de ser expostas a estímulos, a desafios e a tensões, dentro de limites apropriados à idade, para que possam amadurecer e transformar-se em adultos fortes, autónomos e resistentes.
Na sua perspetiva, quando as crianças são educadas numa cultura de segurança, que as ensina a manterem-se ‘emocionalmente seguras’, protegendo-se de todos os perigos imagináveis, é possível que se desenvolva um ciclo de retroação: “As crianças tornam-se mais frágeis e menos resistentes, fazendo parecer aos adultos que precisam de mais proteção, tornando-as, consequentemente, ainda mais frágeis e menos resistentes”.
Se forem demasiado protegidas por adultos que sistematicamente eliminam os obstáculos de modo a prepararem a estrada para as crianças, estas não aprendem a lidar com as inevitáveis pedras que surgem no caminho, ficando impreparadas para percorrer a estrada. “A cultura de segurança transforma as crianças, que são antifrágeis por natureza, em jovens adultos que são mais frágeis e ansiosos”, referem Lukianoff e Haidt.
Apesar de bem-intecionada, a superproteção acaba por impedir as crianças de desenvolverem a sua antifragilidade, tornando-as, pelo contrário, mais frágeis. Ao invés, para preparar as crianças para a estrada, há que permitir-lhes que percorram essa mesma estrada, aprendendo a reconhecer, a contornar ou a ultrapassar as pedras do caminho, naturalmente apoiadas pelos adultos nessa caminhada.
Não se pode ensinar diretamente a antifragilidade, mas, em contrapartida, pode dar-se às crianças aquilo a que estes autores chamam a “dádiva da experiência”, ou seja, os milhares de experiências de que necessitam para se tornarem adultos resilientes e autónomos.
Na sua opinião, essa dádiva “começa com o reconhecimento de que as crianças precisam de algum tempo não estruturado e não supervisionado para aprenderem a avaliar os riscos por si próprias e a lidar com situações e sentimentos como a frustração, o tédio e os conflitos interpessoais”.
O mais importante que as crianças podem fazer nesse tempo é brincar, especialmente em brincadeiras livres, realizadas ao ar livre, com outras crianças. Através destas brincadeiras − que envolvem inúmeras quedas, arranhões, conflitos, alianças, competições e negociações −, desenvolvem não só competências físicas, mas também sociais e emocionais.
