Famílias
Será que o desenvolvimento infantil tem de ser sempre problemático?
Entrei numa grande livraria, na qual me deslumbro sempre com a grande quantidade de publicações disponíveis nas prateleiras sobre educação e aprendizagem. As novidades são tantas que, na maioria das vezes, a única dificuldade é escolher! Mas, da última vez, saí da livraria exaurida, sem vontade de comprar nenhum livro.
É que, enquanto percorria com os olhos as enormes prateleiras, só deparava com publicações sobre problemáticas infantis: perturbação por hiperatividade e défice de atenção, perturbação da oposição e desafio, perturbações do espetro do autismo, dislexia e desortografia, sobredotação e dificuldades de aprendizagem, birras e perturbação do sono...
Perante esta circunstância, senti-me como se estivesse exposta a um exaustivo catálogo sobre tudo quanto pode ser complicado no desenvolvimento de uma criança. E, peço que não me interpretem mal, porque sei, por experiência profissional, que estas problemáticas podem existir e que, quando tal acontece, as crianças necessitam de ser devidamente apoiadas para superarem os desafios.
Mas, o que querem, naquele dia dei por mim a colocar-me na pele de uma pessoa que esteja a pensar em ter filhos e vá em busca de livros que a possam ajudar na preparação para a parentalidade. Perante aquela parafernália de títulos sobre problemáticas infantis, como se irá sentir? Pode, eventualmente, sentir-se assustada com a quantidade de coisas que podem correr mal na educação de uma criança…
Mais uma vez, digo e repito que não desejo que me interpretem mal, porque estes livros são importantes e devem ter lugar nas prateleiras das livrarias. Mas, o que querem, naquele dia dei por mim a sentir falta de obras que falem nas alegrias de ter um filho, no quanto é bom educar uma criança e vê-la crescer, acompanhando as fases do seu desenvolvimento. E também de como a infância dos nossos filhos passa depressa e, por esse motivo, devemos aproveitar muito bem esse tempo tão especial.
E sim, procurando fugir à palavra “normalidade” − porque cada criança é sempre um ser único e especial−, também senti a falta de livros sobre o que é expetável verificar-se nas diferentes fases do desenvolvimento das crianças. É que, se há crianças que enfrentam as problemáticas elencadas nas obras expostas, a maioria desenvolve-se de acordo com o expetável, enfrentando naturalmente os seus próprios desafios em algumas fases do crescimento, sem que estes − com a devida atenção e sensibilidade − assumam proporções de maior gravidade.
Foi dos livros destinados a essas crianças e a esses pais que senti falta nas prateleiras da livraria. Os outros não precisavam de lá sair. Estes é que poderiam lá entrar. O que querem, senti falta de livros que abordem a imensa felicidade de ter um filho…
