Parentalidade
Quem manda lá em casa: os ursos ou o ursinho?
A pergunta em tom algo provocatório sobre quem manda lá e casa − se os pais ursos ou o filho ursinho − serve para chamar a atenção para uma problemática emergente na educação das nossas crianças, relacionada com as questões da hierarquia entre gerações, da autoridade parental e da necessidade de limites.
Se fosse o ursinho que mandasse lá em casa, como teria sido a manhã em que decorre a história dos Três Ursinhos? Será que os ursos e o ursinho teriam saído calmamente de casa para passearem na floresta, enquanto as respetivas papas arrefeciam? Há fortes motivos para desconfiar que não ou, pelo menos, para acreditar que o passeio seria precedido por uma série de peripécias dignas de deixarem os pais ursos com os pelos da cabeça em pé.
Na verdade, se a hierarquia estivesse subvertida na família dos três ursinhos, a consequência seria o ursinho assumir uma atitude desafiadora, que o levaria a questionar cada uma das indicações dos seus pais, dando origem a inúmeras negociações. Algumas birras, explicações e negociações depois, não é difícil imaginar o que provavelmente aconteceria.
Não é necessário ser particularmente clarividente para intuir que já não haveria necessidade de dar um passeio na floresta enquanto as papas arrefeciam. Por uma razão muito simples: porque já estariam frias. O problema passaria a ser outro: como voltar a aquecer as papas e a que temperatura, tendo em conta as preferências de um ursinho sempre difícil de contentar.
Se, após comerem a papa, decidissem dar um passeio, também não seria mais fácil a organização da saída para a floresta. O ursinho não estaria de acordo quanto à indumentária a usar: se estivesse sol, quereria levar galochas; e se fizesse frio, optaria pelas sandálias. Mais birras, explicações e negociações depois, lá sairiam os três de casa, deitando os bofes pelo focinho, e deixando a mesa virada do avesso.
Perante este cenário, o mais provável seria que a Menina dos Caracolinhos de Ouro, mesmo que espreitasse à janela da casa dos três ursinhos, não tivesse vontade de entrar e desse meia-volta para regressar a sua casa. Ou, em alternativa, poderia sempre procurar outra casa mais convidativa para visitar e experimentar cada uma das papas dos membros da família.
Este exercício de suposição que vira a história dos Três Ursinhos de pernas para o ar representa uma metáfora para as consequências da abolição da hierarquia entre adultos e crianças, que coloca pais e filhos num patamar de igualdade, dificultando o exercício da autoridade por parte das figuras parentais.
Poderíamos pensar que, apesar desta inversão da hierarquia familiar tornar mais difícil o papel dos pais, pelo menos seria positiva para as crianças, que cresceriam mais livres, mais felizes e com uma autoestima mais reforçada. Mas, a avaliar pelo resultado dos estilos educativos demasiado permissivos, esta suposição não parece corresponder à realidade. Perante as consequências deste paradigma, há cada vez mais vozes que se levantam em defesa da necessidade de haver uma hierarquia entre as gerações, que dê suporte ao exercício da autoridade parental.
Este Grande Tema é abordado ao longo de 8 reflexões, nas quais se procura ponderar sobre a necessidade de existência de uma hierarquia entre gerações, depois de salvaguardada a diferença entre autoritarismo e autoridade; sobre o poder intrínseco ao exercício da parentalidade, baseado numa autoridade amorosa, acolhedora e recetiva; e, ainda, acerca da necessidade de estabelecer limites educativos, de modo a dar às crianças a orientação e a proteção de que necessitam para crescerem.
