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Parentalidade

Das fadas madrinhas aos “pais helicópteros”

Tal como as fadas madrinhas da Bela Adormecida, também os pais procuram dar o melhor aos filhos, proporcionando-lhes uma educação o mais completa possível. Mas, nesta demanda, não estaremos a preencher demasiado o tempo das crianças, deixando-lhes pouco espaço para a vivência da infância?


Se compararmos o papel das fadas madrinhas da Bela Adormecida com o dos pais dos nossos dias, apercebemo-nos de que partilham o desejo de proporcionar as melhores oportunidades educativas às crianças, para que possam ter sucesso no futuro. Mas há algo que distingue as fadas madrinhas dos pais atuais: enquanto as primeiras dispunham de todo o tempo do mundo para consagrar à princesinha, os segundos debatem-se com falta de tempo para dedicarem aos filhos.


Na verdade, a nossa época está repleta de contradições: se, por um lado, os pais estão muito centrados nos filhos, por outro lado nem sempre dispõem do tempo que gostariam ou que achariam adequado para estar com eles. E, em matéria de tempo passado em família, por mais que possa defender-se que a qualidade é mais importante do que a quantidade, esta última não deixa de ser relevante para o bem-estar das crianças. Com esta constatação não se pretende culpabilizar os pais, acreditando que naturalmente apreciariam ter maior disponibilidade para a família.


Só que os pais, muitas vezes, não têm poder de escolha na gestão do seu tempo, ficando reféns de exigências profissionais excessivas e difíceis de conciliar com a vida familiar. Frequentemente, debatem-se com horários demasiado extensos – que, por vezes, se prolongam com telefonemas e e-mails quando estão em casa −, com percursos de deslocação desgastantes, e com ambições relativas à sua carreira que, nas devidas proporções, são certamente legítimas.


Este é um tema que deveria implicar uma séria reflexão por parte da sociedade, ainda para mais quando se verifica uma descida preocupante das taxas de natalidade. Se o trabalho é sem dúvida importante, a família também o é, devendo apontar-se para um maior equilíbrio na gestão do tempo, de modo a que as necessidades das crianças não sejam sacrificadas, e os pais não lidem permanentemente com a sensação de estarem a falhar ou, pelo menos, de não estarem tão presentes quanto desejariam.

 
No tempo que têm para estar em família, é como se os pais pretendessem compensar a falta de extensividade com a intensidade do exercício da parentalidade, esforçando-se por colmatar a sua ausência com uma presença muito intensa. Deste modo, tentam suprir a quantidade com a qualidade, procurando maximizar a estimulação das crianças, com o objetivo de potenciar o desenvolvimento global dos seus filhos.

A proliferação dos “pais helicópteros”


Com o objetivo de proporcionar às crianças uma educação o mais completa possível, os pais procuram ampliar o seu leque de atividades, de modo a proporcionar-lhes experiências enriquecedoras e diversificadas, consideradas favoráveis para o seu sucesso. Esta preocupação principia, frequentemente, desde idades precoces, sendo responsável pela criação de uma agenda sobrecarregada que deixa pouco tempo livre para a brincadeira.

 
No livro com o esclarecedor título A tirania do mérito, Michael J. Sandel, professor de Filosofia, chama a atenção para aquilo que denomina como o fenómeno da proliferação dos chamados “pais helicóptero”, caracterizados por “uma abordagem demasiado intensiva em termos de tempo e controladora da educação dos filhos, que se generalizou nas últimas três décadas”. Na sua perspetiva, a responsabilidade por este fenómeno pode ser atribuída à luta meritocrática, que “dá azo a uma cultura parental de intromissão, orientada para o sucesso e intrusiva”.

 
A emergência dos “pais helicóptero” tem coincidido, segundo este autor, com as décadas em que a competição meritocrática se tornou mais intensa, durante as quais “a necessidade de preparar os jovens para o sucesso académico passou a ser encarada como uma responsabilidade parental de suma importância”. Como consequência, “ficámos tão obcecados com o sucesso dos nossos filhos que a parentalidade se tornou uma espécie de desenvolvimento de produtos”.

 
A parentalidade não corresponde a uma espécie de desenvolvimento de produtos


O professor universitário Olivier Babeau, no livro La tyrannie du divertissement, questiona o controlo absoluto exercido pelos “pais helicóptero” sobre as atividades dos seus filhos, com o objetivo de organizarem e ocuparem todos os instantes. “Esta é verdadeiramente uma boa solução?”, interroga-se. Na sua opinião, não. Primeiro, porque as crianças se arriscam “a perder o tempo do sonho, do devaneio, a autonomia, a capacidade de procurar por si próprias e a socialização”. Segundo, porque a erosão progressiva dos momentos de brincadeira livre impede o bom desenvolvimento da criança e tem inúmeras consequências negativas quando esta cresce. “Os pais helicóptero não constituem um bom modelo de parentalidade. Nada é positivo em excesso. A chave, como em tudo o resto, é o equilíbrio, residindo no meio-termo”, afirma.


Como o tempo não é elástico, algo tem de ficar inevitavelmente a perder com o incremento de agendas demasiado sobrecarregadas. Como não poderia deixar de ser, o aumento do tempo dedicado à educação é inversamente proporcional à diminuição do tempo destinado a brincar, situação que merece uma crítica negativa por parte de Carlos Neto, especialista na área da brincadeira e do jogo na infância.


Este autor não poderia ser mais claro quando recomenda aos pais e educadores que não se esqueçam da importância de brincar nas primeiras idades e dos seus benefícios em todos os campos do desenvolvimento humano. Na obra Libertem as crianças, destaca que “a evidência científica atribui ao ato de brincar uma associação evidente com o desenvolvimento cerebral ótimo”, uma vez que “as experiências vividas durante este período evolutivo, no qual as janelas de oportunidades estão abertas, são enviadas e traduzidas em conexões sinápticas fundamentais para a maturação adequada do cérebro e para o desenvolvimento motor”.

 
Em conformidade, a privação de tempo para brincar na infância é altamente impactante, na medida em que é irreversível e irrecuperável. É por todos estes motivos que Carlos Neto se opõe ao facto de as crianças terem o tempo demasiado formatado, com falta de tempo livre, de tempo para brincar e de tempo para serem felizes na infância. Tal como salienta, “a infância só se vive uma vez e, por isso, tem de ser vivida com toda a profundidade”.

Das fadas madrinhas aos “pais helicópteros”
icon Acerca do fenómeno dos pais helicóptero

Acerca do fenómeno dos pais helicóptero

“Ficámos tão obcecados com o sucesso dos nossos filhos que a parentalidade se tornou uma espécie de desenvolvimento de produtos.”

Michael J. Sandel
Professor de Filosofia

“Os pais helicóptero não constituem um bom modelo de parentalidade. Nada é positivo em excesso. A chave é o equilíbrio, residindo no meio-termo.”

Olivier Babeau
Professor universitário

“As crianças têm currículos extensos e intensos, têm o tempo demasiado formatado e há falta de tempo livre, de tempo para brincar e de tempo para ser feliz na infância”.

 
Carlos Neto
Professor de Motricidade
Humana