Parentalidade
De protagonistas das histórias a pequenos operários
Depois de eleitas à categoria de protagonistas da sua história, as crianças são tratadas como pequenos operários, que pegam ao serviço às nove da manhã, para uma jornada de trabalho igual ou superior à dos adultos, que também inclui atividades extracurriculares e trabalhos de casa. Contemos as horas… e pensemos no que andamos a fazer!
A preocupação com o desenvolvimento e o sucesso das crianças conduz à ocupação do tempo com atividades que estimulem o seu desenvolvimento. Neste afã, os pais inscrevem os filhos numa série de atividades destinadas a intensificar a aprendizagem, com recurso a explicações que melhorem o desempenho académico, e noutras tendo em vista ocupar os tempos livres dos mais novos que, desta forma, deixam de ser tempos livres para passarem a ser tempos ocupados.
As crianças ficam com uma agenda sobrecarregada com um leque alargado de atividades extracurriculares, destinado a promover o seu desenvolvimento nas diversas áreas. Assim, para incentivar a prática desportiva, têm aulas de natação, futebol, dança, circo aéreo, equitação, patinagem, karaté, jiu-jítsu, judo ou outras artes marciais. Para promover a criatividade e o desenvolvimento de talentos e aptidões, inscrevem-se em atividades artísticas que implicam a aprendizagem de um instrumento musical, das técnicas do canto ou das artes plásticas. Já para não falar na componente científica, incentivada com recurso a “ginásios” de Matemática ou a empresas de ciência “divertida”. E, para descansar a mente das crianças de tantas atividades, ainda podem experimentar mindfulness, meditação, ioga e afins.
Estas atividades podem decorrer em espaço escolar, com a extensão dos horários de permanência das crianças nos estabelecimentos de ensino, que podem chegar a oito, nove ou dez horas diárias. Ou podem ser realizadas externamente, cabendo aos pais transportar as crianças da escola para a equitação, da equitação para o violino e do violino para a natação. E nem mesmo aos fins de semana esta atividade incessante logra abrandar. Entre as festas de anos dos amigos e as atividades que não houve oportunidade de realizar durante a semana, pais e filhos andam permanentemente numa azáfama, sem tempo para pararem e retornarem à calma.
Equilíbrio entre as atividades estruturadas e não estruturadas
Com esta reflexão não se pretende afirmar que escolher algumas atividades, dentro ou fora da escola, não possa ser positivo para proporcionar novas experiências às crianças, para desenvolver os seus talentos, ou para completar a sua educação com aprendizagens que a escola geralmente não tem condições para proporcionar, como por exemplo a natação. Também não se procura negar a importância de assegurar o apoio técnico ou pedagógico, quando as crianças enfrentam dificuldades de aprendizagem ao longo do seu percurso escolar.
O problema não reside tanto na realização de atividades extracurriculares ou de reforço escolar, quando estas são escolhidas com conta, peso e medida, de acordo com os desejos e as necessidades das crianças. Tal como refere Carlos Neto, professor na Faculdade de Motricidade Humana, no livro Libertem as crianças, o mais importante é o equilíbrio entre o tempo dedicado às atividades estruturadas e às não estruturadas no desenvolvimento das crianças, que considera essencial para que possam obter sucesso na vida adulta.
O desequilíbrio começa quando as atividades estruturadas se tornam excessivas, sobrecarregando a agenda semanal das crianças, com horários de trabalho iguais ou superiores aos dos adultos. É que, quando tal acontece, corremos o risco de privar as crianças de um tempo precioso, inalienável e inadiável na infância: o tempo para brincar. Nesta linha, o psiquiatra Augusto Cury, no livro Autocontrolo: Como vencer a síndrome do pensamento acelerado, formula uma crítica contundente: “As crianças têm tempo para tudo menos para ter infância”.


Reflexão e ação
Não escolha uma escola em função da quantidade da oferta curricular
Em educação, a quantidade não é sinónimo de qualidade e até pode ser contraproducente para o desenvolvimento harmonioso das crianças, se preencher demasiado o seu tempo, sem lhes deixar espaço para a brincadeira livre e para o desenvolvimento do seu mundo interior.
Selecione as atividades extracurriculares com conta, peso e medida
Envolva os seus filhos na escolha das atividades extracurriculares, mas, depois de os ouvir, selecione cuidadosamente aquelas em que os vai inscrever, procurando não sobrecarregar as crianças com um excesso de atividades extracurriculares.
Converse também com os seus filhos acerca da importância de fazer opções com princípio, meio e fim, para evitar escolhas erráticas e constantes mudanças de atividades, ao sabor da corrente e sem qualquer consistência.
Permita que os seus filhos tenham tempo para brincar
Resista à tentação de organizar todos os tempos dos seus filhos, procurando obter uma máxima eficácia em termos de desenvolvimento global. Essa sobreocupação do tempo dos mais novos pode funcionar ao contrário do pretendido, deixando as crianças num permanente estado de exaustão, contribuindo para a fragmentação da sua atenção e impedindo-as de usufruir de tempo para brincar.