Parentalidade
Entrevista: As atividades não estruturadas são fundamentais para o desenvolvimento das crianças
A psicóloga Maria Brás chama a atenção, nesta entrevista, para os efeitos negativos do fenómeno dos pais helicópteros, defendendo que as crianças também necessitam de ter tempo livre e de usufruir da liberdade de brincar sem regras.
1. Qual o impacto do fenómeno dos “pais helicópteros” na vida das crianças?
Considero que esta abordagem demasiado intensiva pode ter consequências adversas significativas no desenvolvimento das crianças. Os pais helicópteros querem o melhor para os filhos, mas o excesso de controlo pode ter efeitos contraproducentes. Uma parentalidade hiperprotetora tende a conduzir a menor autonomia, a maiores níveis de ansiedade e a uma menor capacidade de gestão de frustração nas crianças. Além disso, a ausência de experiências desafiadoras pode comprometer o desenvolvimento da autoestima e a capacidade de enfrentar e resolver problemas.
Como professora do ensino superior, lido anualmente com o resultado de uma parentalidade excessivamente protetora, que se manifesta na incapacidade de os alunos assumirem posições face ao seu percurso e de traçarem objetivos de carreira.
2. As crianças devem ser estimuladas, mas não é por serem hiperestimuladas que aprendem mais, melhor e mais depressa. Concorda com esta afirmação?
Aprender é um processo natural que envolve explorar, interagir e evoluir conforme as necessidades de cada criança. A hiperestimulação, frequentemente promovida por pais com uma abordagem intensiva, pode resultar em stress cognitivo e emocional, dificultando a aquisição de competências de forma equilibrada. Existem estudos* que indicam que um excesso de atividades estruturadas pode reduzir o espaço para a criatividade e para a consolidação natural dos conhecimentos, prejudicando a capacidade de aprendizagem a longo prazo.
3. Há crianças que têm uma agenda semanal sobrecarregada. Quais as consequências dessa sobreocupação?
Muitas crianças vivem com agendas sobrecarregadas, com atividades extracurriculares que limitam significativamente o seu tempo livre (para a criatividade e, especialmente, para os afetos). Essa sobrecarga pode causar ansiedade, cansaço excessivo e afetar o bem-estar emocional das crianças. Além disso, a falta de espaço para o lazer espontâneo e para a brincadeira pode afetar o desenvolvimento social, impedindo a aprendizagem de estratégias naturais de autorregulação e de resolução de problemas.
4. Qual a importância das atividades não estruturadas e não orientadas pelos adultos na vida das crianças?
As atividades não estruturadas são fundamentais para o desenvolvimento das crianças. A liberdade de brincar “sem regras” promove a criatividade, a autonomia e a capacidade de resolver problemas. O tempo de brincadeira livre tem um impacto positivo na regulação emocional e na capacidade de interação social. Além disso, permite que as crianças desenvolvam a capacidade de tomar decisões e de lidar com desafios de uma forma independente.
5. Hoje em dia, existe uma cultura do medo que dificulta a brincadeira livre. Como alterar esta situação?
A crescente cultura do medo, impulsionada por preocupações de segurança e por uma sociedade excessivamente protetora, tem restringido significativamente a brincadeira livre. Para alterar esta situação, é essencial promover algumas mudanças na mentalidade dos pais e educadores, encorajando um equilíbrio entre segurança e autonomia infantil. Campanhas de sensibilização podem ajudar a demonstrar os benefícios do jogo independente para o desenvolvimento, mas também é essencial criar mais espaços urbanos seguros e convidativos, onde as crianças possam brincar livremente e nos quais os pais vejam um menor risco para os seus filhos.
*Gray, P. (2013). Free to Learn: Why Unleashing the Instinct to Play Will Make Our Children Happier, More Self-Reliant, and Better Students for Life. Basic Books.
