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Parentalidade

Quando as asas dos pais planam constantemente sobre os filhos

As asas dos pais planam sobre os filhos com a benigna intenção de os proteger dos perigos. Mas este receio do risco pode estar na base de uma hipervigilância que concorre para institucionalizar uma cultura de medo, em detrimento da autonomia de que as crianças necessitam para o seu desenvolvimento.


Quando os filhos são muito pequenos − particularmente na fase em que ainda não têm a noção do perigo −, é normal os pais preocuparem-se com a sua segurança, reforçando a vigilância das brincadeiras. Mas, à medida que as crianças crescem, é preferível eliminar os riscos que possa haver em casa, para que tenham a possibilidade de brincar em segurança, sem terem de ser permanentemente vigiadas de perto. Obviamente, os pais estão nas imediações e vão circulando para acompanhar as brincadeiras dos filhos, incentivando-os a prosseguir as suas atividades. A aposta na responsabilização, enquanto alternativa a uma supervisão intensiva, acompanha o desenvolvimento infantil, promovendo a confiança e a autonomia.


Também quando estão em locais exteriores, como parques infantis ou espaços naturais, as crianças necessitam de brincar livremente, com uma vigilância responsável por parte dos adultos, que não seja demasiado intrusiva. É precisamente esta a visão de Carlos Neto, professor na Faculdade de Motricidade Humana e especialista na área da brincadeira e do jogo, que tem chamado a atenção para a importância de brincar livremente e de correr riscos controlados. Para que tal aconteça, como defende no livro Libertem as crianças, há que evitar a “institucionalização do medo”, que deriva em “atitudes excessivas de supervisão, inibindo ou proibindo situações de risco”.

 
Aceitar os benefícios dos pequenos riscos


Carlos Neto não exclui, naturalmente, a existência de limites para o risco. O que pretende dizer é que estes limites “só podem ser consciencializados se as crianças viverem experiências suficientemente desafiantes e, em muitos casos, com uma supervisão adulta atenta”. Para que tal aconteça, há que “aceitar os benefícios de pequenos riscos e a existência de pequenos acidentes (joelhos esfolados, pequenas escoriações, etc.)”, na medida em que estes podem “representar aspetos muito positivos para o desenvolvimento da criança”.
O problema é que o aumento exponencial dos receios em matéria de segurança infantil, que deriva em atitudes de superproteção parental, pode estar a impedir ou, pelo menos, a limitar os benefícios da brincadeira livre e do brincar de risco na geração dos nossos filhos. “Passadas várias gerações, podemos constatar que as crianças do nosso tempo estão a brincar menos e, principalmente, a saber menos como lidar e controlar situações de risco. Em casa, na escola e na rua, o brincar tornou-se uma atividade cada vez mais estruturada, dirigida e formatada, através da intervenção dos pais e dos profissionais de educação”, escreve Carlos Neto.

A importância do brincar de risco


Segundo Carlos Neto, a superproteção parental tem diversos aspetos negativos, na medida em que “impede e ‘mata’ o desenvolvimento da autonomia nas primeiras idades”. Assim, “os medos do perigo, associados a uma comunicação verbal e gestual dos pais sobre situações de risco que os filhos possam estar a viver, criam uma situação de grande falta de confiança”.

 
Paradoxalmente, esta proteção excessiva transforma-se numa espécie de pescadinha de rabo na boca, aumentando a necessidade de reforçar a proteção: “Exercemos uma superproteção patológica que não cria condições para que as crianças possam ter capacidade criativa e de adaptação, o que leva os pais a protegerem-nas ainda mais”.


Ao invés, este especialista defende a importância daquilo que denomina como “brincar de risco” que, na sua perspetiva, tem inúmeras vantagens no desenvolvimento infantil, nomeadamente no desenvolvimento do cérebro, no comportamento motor e social, no controlo emocional, bem como na construção de uma maior segurança e confiança:  “Os desafios de brincar em situações de risco podem ser muito positivos, considerando que, além do aperfeiçoamento do desenvolvimento motor, incentivam a criatividade, a resolução de problemas, as habilidades sociais, a superação pessoal, o lidar com os medos e as frustrações”.

 
Como faz questão de salientar Carlos Neto, não está em causa que os pais queiram tudo de bom para os filhos. O que está em questão é o aparecimento de novos problemas associados à educação das crianças do nosso tempo, que podem estar a pôr em perigo a sua identidade e as suas necessidades básicas de desenvolvimento biológico e cultural. “Necessitamos de desconstruir os medos e recusar o excesso de proteção adulta na vida das crianças. É urgente desembrulhar e libertar o corpo das crianças de uma cultura institucionalizada de receios e proibições e o controlo ‘quase patológico’ na promoção da sua autonomia”.

 
Nesta linha, este especialista defende que “os pais devem ter uma supervisão responsável e afetiva no desenvolvimento dos filhos e ser capazes de desconstruir as representações mentais do medo que se instalaram nas suas cabeças, em favor da autonomia de que as crianças necessitam para o seu crescimento”.

Quando as asas dos pais planam constantemente sobre os filhos
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Bloco de notas

Acabar com os medos e com a superproteção

“Libertar as crianças implica acabar com os medos e a superproteção dos adultos, deixando-as brincar e serem ativas mais tempo de forma livre, através de mais consciencialização para dar asas aos sonhos e experiências que elas necessitam de fazer para se desenvolverem de forma apropriada à idade e motivação intrínseca que as influenciam para se conhecerem, se estruturarem e adaptarem aos ambientes que as desafiam”.

Carlos Neto,
Professor de Motricidade Humana