Parentalidade
E se as crianças fossem como a fruta e devessem amadurecer no tempo certo?
Com a melhor das intenções, padecemos da ilusão do quanto mais, melhor, e, se possível, de preferência mais cedo. Sob o efeito desta ilusão, acreditamos numa lógica aditiva que procura expandir e antecipar as oportunidades de aprendizagem, para maximizar o sucesso escolar. Mas… e se a infância não tivesse de ser como a fruta amadurecida à pressa para entrar mais rapidamente no circuito de distribuição?
Preocupados em garantir as melhores condições para o sucesso escolar dos filhos, os pais dedicam tempo à escolha da escola que melhor satisfaça os seus critérios e expectativas. Existem escolas privadas que procuram acompanhar essa demanda parental com uma oferta pedagógica diversificada, destinada a cativar potenciais clientes com poder de compra.
A lógica que preside a este tipo de opção é de caráter aditivo, baseada no pressuposto de quanto mais, melhor, que conota a quantidade de atividades disponibilizadas pela escola com a qualidade do seu projeto educativo. Esta lógica assenta numa ideia mercantilista da educação que visa a maximização da oferta, estabelecida enquanto forma de competição entre escolas.
Este tipo de opções educativas costuma concretizar-se através de horários extremamente preenchidos, colados nas portas dos frigoríficos das famílias, para que os pais consigam acompanhar tamanha diversidade de oferta, que não raras vezes contempla duas ou mais atividades em cada dia da semana.
Na educação pré-escolar menos pode ser mais
A valorização deste tipo de critérios de caráter aditivo para a comparação entre escolas afigura-se, antes de tudo o mais, simplista. Ao invés, no início da educação pré-escolar, menos pode ser mais. E esse menos pode ser mais na medida em que corresponde àquilo de que as crianças mais necessitam nesse momento do seu desenvolvimento. E aquilo de que mais necessitam é da vinculação emocional profunda ao seu adulto de referência, com o qual precisam de estabelecer uma relação de confiança, que lhes dê segurança para avançarem nas suas conquistas.
Esta opção não corresponde, de modo algum, a um empobrecimento curricular, tanto mais que os educadores de infância têm a formação adequada para desenvolverem todas as áreas elencadas nas orientações curriculares destinadas à educação pré-escolar. Mas esta posição também não é contrária ao reforço das equipas pedagógicas com professores especialistas, com uma formação direcionada para as áreas que lecionam. O cerne da questão prende-se com o timing do alargamento do número de professores que interagem com as crianças e da introdução de novas atividades no horário semanal.
Se realizado demasiado cedo, o envolvimento precoce com demasiados professores pode afetar a vinculação profunda a um adulto de referência, introduzindo um deslaçamento dos afetos e conduzindo a relações emocionais mais frágeis, que não são propícias a criar a segurança de que as crianças necessitam, nem a desenvolver o seu sentido de pertença. Contrariando este modelo, a introdução de novos docentes pode fazer-se ao longo da educação pré-escolar, alargando gradualmente o número de professores e diversificando o leque de experiências dos mais novos.
Dois equívocos que importa desfazer
A introdução de um número excessivo de atividades na educação pré-escolar pode estar assente em dois equívocos. O primeiro equívoco consiste na crença de que as atividades orientadas por adultos são mais úteis para o desenvolvimento infantil do que as não orientadas, consideradas de certa forma como inúteis ou, pelo menos, como menos úteis.
Na verdade, estes dois tipos de atividades − as orientadas e as não orientadas − devem ter lugar na vida das crianças, ao longo do seu crescimento. Mas há aprendizagens que as crianças só têm oportunidade de realizar em interação com os seus pares, desfrutando das brincadeiras que espontaneamente acontecem e procurando resolver os atritos que naturalmente surgem quando se estabelece uma relação com os outros.
O segundo equívoco prende-se com a ideia de que a quantidade é sinónimo de qualidade, sem ponderar que o excesso de atividades induz uma aceleração generalizada da perceção do tempo, que gera intranquilidade, desassossego, dispersão e volatilidade de atenção.
Se pensarmos que são precisamente estas as dificuldades que muitas crianças dos nossos dias enfrentam perante a aprendizagem, é caso para nos perguntarmos se, de tanto lhes querermos dar, não estaremos, pelo contrário, a retirar-lhes experiências importantes?
