Saltar para conteudo Mapa do site

Aprendizagem

As crianças de hoje demonstram maior resistência à consolidação da ortografia?

O aperfeiçoamento ao nível da ortografia pressupõe atitudes por parte dos alunos que estão em contraciclo com algumas das caraterísticas das crianças dos nossos dias. Mas é precisamente por esse motivo que pode contribuir para burilar esses aspetos, que têm um papel a desempenhar no desenvolvimento infantil.


Além de ser encarado como um meio para escrever melhor, o trabalho sobre a ortografia pode contribuir para que as crianças dos nossos dias enfrentem alguns desafios significativos para o seu desenvolvimento, investindo na duração das tarefas, recorrendo ao treino, estabilizando a atenção, contornando o aborrecimento e aprendendo a lidar com o erro.

A aprendizagem da ortografia leva tempo


A aprendizagem da ortografia é uma atividade demorada que começa com a iniciação à escrita, mas se prolonga no tempo com a abordagem dos casos de leitura e a consolidação das regras e das respetivas exceções. Esta necessidade de duração entra em contraciclo com a tendência para o pensamento rápido prevalecente nos nossos dias, que influencia a forma como as crianças se posicionam perante a aprendizagem.

 
De acordo com a visão do médico e cientista Lamberto Maffei, que aborda a diferença entre o pensamento rápido e o pensamento lento no livro com o emblemático título Elogio da Lentidão, a evolução da tecnologia conduziu a uma aceleração do tempo e, consequentemente, uma verdadeira revolução do pensamento, que se tornou mais acelerado.


Ao contrário do pensamento lento, que implica o aprofundamento da reflexão, a estabilização da atenção e a aposta na duração, o pensamento rápido não tem por natureza paciência, qualidade graças à qual sabemos esperar antes de julgar e agir, contraposta à decisão rápida do fazer, que parece ter horror ao tempo que passa.


Na opinião de Maffai, uma excessiva prevalência dos mecanismos rápidos do pensamento pode implicar soluções e comportamentos errados, danos na educação e na vivência civil. A consciência destes riscos representa, simultaneamente, uma oportunidade e um convite para reconsiderarmos as potencialidades do chamado pensamento lento ao nível da educação escolar, nomeadamente no que respeita à linguagem e à escrita.


Dentro deste quadro, é fácil de perceber que um trabalho mais demorado, lento e prolongado no tempo, como é o caso do trabalho ortográfico, possa não ser aquele que mais cativa as crianças, habituadas aos mecanismos do pensamento rápido. No entanto, até por esse motivo, a consolidação da ortografia pode contribuir para revisitar os mecanismos do pensamento lento, contrapondo-se à predominância do pensamento rápido.

 
A aprendizagem da ortografia implica repetição e treino


Quando as crianças estão a aprender as regras ortográficas, são confrontadas com muita informação em simultâneo e, mesmo que no momento pareçam ter compreendido o caso trabalhado, parece que rapidamente se esquecem de o aplicar quando estão a escrever.

 
Para que esta aprendizagem seja devidamente consolidada, é necessário revisitar periodicamente as regras já abordadas, insistindo até que sejam apropriadas pelos alunos. Para que isso aconteça, é importante a repetição dos exercícios e o treino continuado das regras ao longo do tempo.


Mais uma vez, esta necessidade de repetição opõe-se à preponderância dada à novidade nos nossos dias, que tende a desvalorizar aquilo que se repete, sempre em busca de novos estímulos cada vez mais excitantes. Como refere o filósofo Byung-Chul Han, “na busca de novos estímulos, excitações e experiências, perdemos a capacidade de repetição”, criando intervalos vazios, que “só podem ser transpostos através do drástico e do excitante”.


O desejo de novidade é naturalmente empolgante e deve ter lugar na aprendizagem, mas, se não for contrabalançado, pode contribuir para tornar as crianças mais inquietas, insatisfeitas e desconcentradas. Para moderar esta tendência, a novidade necessita do seu contraponto, que são as rotinas e as repetições, significativas para tranquilizar e dar segurança às crianças, favorecendo a estabilidade e o retorno à calma.


Na obra Do desaparecimento dos rituais
, o mencionado filósofo salienta que “muitas formas de repetição, como por exemplo aprender de memória, são hoje vetadas com a alegação de que reprimem a criatividade e a inovação”. Mas, na sua opinião, “as repetições fazem com que a atenção se estabilize e torne mais profunda”.

A aprendizagem da ortografia requer atenção


A aprendizagem da ortografia requer uma atenção consistente por parte das crianças, cujo foco tem de ser mantido de forma constante para que a correção ortográfica possa ser gradualmente aperfeiçoada. Mas, mais uma vez, esta necessidade colide com as dificuldades ao nível da atenção manifestadas por muitas crianças dos nossos dias, mesmo por aquelas que não têm qualquer diagnóstico de perturbação relacionada com os mecanismos atencionais.


Para o psiquiatra Cristophe André, a sociedade contemporânea não ajuda em matéria de capacidades de concentração e de absorção numa tarefa. Pelo contrário, como refere no livro Imperfeitos, livres e felizes, a atenção é cada vez mais solicitada por elementos de distração e interruptores de atenção de todos os tipos, o que “implica que sejamos resistentes para que as nossas capacidades de atenção e de concentração não se desagreguem sob o ataque cerrado de todas estas solicitações”, criando condições para o aumento das dificuldades relacionadas com a atenção.

 
No livro A sociedade do cansaço, Byung-Chul Han considera que a técnica temporal e de atenção multitasking (multitarefa) não representa nenhum progresso da civilização, atribuindo mesmo a responsabilidade pela fragmentação e até pela destruição da capacidade de atenção. Estamos a assistir a uma deslocação de um tipo de atenção profunda para uma forma de atenção radicalmente distinta, a hiperatenção, que se carateriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos, o que, na opinião deste filósofo, se encontra na génese das dificuldades ao nível da atenção.


Assim, o trabalho de treino ortográfico também pode desempenhar um papel ao nível do reforço da capacidade de atenção, promovendo a sua estabilização por meio da repetição, da insistência e das rotinas. Estas últimas desempenham um papel na tranquilização das crianças, reforçando a segurança de que também necessitam para progredir na aprendizagem.


A aprendizagem da ortografia pode ser aborrecida


Como se não bastasse, a aprendizagem da ortografia pode ser aborrecida, devido à repetição, à insistência e à duração. Para aliviar este aborrecimento, os professores podem procurar valorizar o processo de descoberta através de “Laboratórios de ortografia”, realizar alguns jogos e tarefas um pouco mais lúdicas, e propor atividades a pares e em pequenos grupos.

 
Mas, outras vezes, podem propor meros exercício de sistematização, porque, na verdade, nem tudo na aprendizagem tem de ser necessariamente divertido. As crianças também necessitam de criar alguma resistência ao aborrecimento que, inevitavelmente, faz parte de algumas situações de aprendizagem, percebendo que, por vezes, para obterem um bem maior, como escrever com correção, podem ter de enfrentar alguns desafios menos prazerosos.


Estes desafios opõem-se aos valores hedonistas presentes na nossa sociedade, caraterizada pelo excesso de positivização, que nos incentiva a tentar eliminar constantemente a sentimentos “negativos” e a acumular sentimentos “positivos”, para que nos possamos sentir permanentemente felizes, como refere o filósofo Byung-Chul Han, na obra Sociedade do Cansaço.


Mais uma vez, o treino ortográfico entra em rota de colisão com esta demanda da felicidade, ao incluir tarefas que nem sempre são as mais agradáveis ou apelativas, mas que são naturalmente necessárias para a aprendizagem. Ao confrontarem-se com estas tarefas, os alunos podem muscular a vontade e perceber que, em algumas circunstâncias, o aborrecimento pode ser um caminho para escreverem melhor.

A aprendizagem da ortografia confronta-nos com o erro


Quando estão a aprender a escrever, as crianças naturalmente dão erros de ortografia e não devem ter um sentimento de penalização por esse facto. O erro faz parte da aprendizagem e, no caso de um processo com esta complexidade, não vai certamente ser ultrapassado de um dia para o outro.


Perceber qual a origem do erro pode ajudar a ultrapassá-lo, como é o caso de uma regra ortográfica que ainda não está devidamente consolidada e que tem de ser revisitada. Mas há muitas palavras cuja ortografia não corresponde propriamente a regras (ex: pescoço escreve-se com ç e passagem com ss e, no entanto, trata-se do mesmo som e ambos se encontram entre vogais), não restando outra solução que não seja a de ser ir fixando a forma como se escrevem as palavras, à medida que a criança adquire hábitos de leitura e progride na escrita.


Durante este processo, é normal que as crianças tenham dúvidas e é positivo que lhes seja dado espaço para as colocar, quer perguntando ao professor, quer consultando o dicionário ou um portefólio de aprendizagem. Na verdade, ter dúvidas é um bom sinal, na medida em que revela que já se tem consciência da complexidade das regras que ligam o oral ao escrito.


E é muito importante que, ao longo desta aprendizagem, se festejem as conquistas das crianças, valorizando a criatividade na escrita de textos, a originalidade dos temas abordados, a capacidade de organização das ideias, a riqueza do vocabulário, a mestria na escrita dos diálogos e a destreza na utilização da pontuação.

Bibliografia:


André, C. (2007). Imperfeitos, livres e felizes. Sinais de fogo.
Maffai, L. (2020). Elogio da lentidão. Edições 70.
Han, C.H. (2020). Do desaparecimento dos rituais. Relógio D’Água.
Han, C.H. (2015). Sociedade do cansaço. Editora Vozes.

As crianças de hoje demonstram maior resistência à consolidação da ortografia?