Saltar para conteudo Mapa do site

Aprendizagem

Quais os desafios que se colocam a um leitor inexperiente?

A capacidade de ler fluentemente não surge de um dia para o outro. Mesmo quando as crianças já compreenderam como funciona o mecanismo da leitura e da escrita, ainda têm um caminho pela frente, durante o qual necessitam de ganhar experiência na leitura.


Porque é que as crianças inexperientes na leitura têm dificuldade em aceder ao sentido da mensagem?


Quando o meu neto aos seis anos começou a ler, tal como é normal nos leitores principiantes ainda o fazia de forma hesitante, identificando algumas palavras que já sabia, descodificando outras tantas que não conhecia, “tropeçando” em algumas delas, e procurando apoiar-se no contexto para perceber quais eram as palavras que lhe suscitavam dúvidas, muitas delas com muita lógica.


Esta fase, que faz parte do processo de aprendizagem, corresponde a uma altura em que a criança já compreendeu como funciona o código escrito, mas ainda tem dificuldade em mobilizar em simultâneo todas as ferramentas de acesso a esse código, de forma célere e eficaz, o que faz com que, muitas vezes, depois de ler, tenha dificuldade em aceder ao sentido da mensagem.


Se comparamos esta fase à altura em que acabámos de tirar a carta de condução, mas ainda não possuímos experiência de estrada, poderemos recordar como nos parecia difícil lidar com demasiada informação ao mesmo tempo: utilizar os pedais, meter as mudanças, prestar atenção ao trânsito e aos sinais de trânsito, calcular a distância entre o nosso e os outros automóveis… e tudo isto sem perder de vista o itinerário para chegar ao destino.


A consciência deste tipo de dificuldades, que são absolutamente naturais antes de atingir a fase da automatização, é relevante para que se tenha uma atitude compreensiva para com a criança, pautada pela paciência e pelo encorajamento, reconhecendo e incentivando os seus progressos, mas sem a pressionar em demasia e, sobretudo, evitando críticas ao seu desempenho na leitura.


A nossa postura durante esse processo é muito importante para a relação que as crianças vão estabelecer com a leitura, ganhando progressiva confiança nas suas capacidades e avançando de forma prazerosa nesse novo mundo, ou, pelo contrário, criando a ideia de que a leitura é uma atividade árida da qual preferem manter a distância possível.

As dúvidas das crianças na leitura têm lógica?


As dificuldades encontradas durante esta fase muitas vezes são lógicas, se assumirmos o ponto de vista da criança. Por exemplo, perante a palavra boca, o meu neto leu “bóca” e, quando lhe foi explicado que se lia “bouca”, perguntou com toda a naturalidade porque é que então não se escrevia boca com “ou”. Mas, em muitas outras palavras, o “o” lê-se “u”, sendo necessário que a criança descubra qual o valor do “o”, conforme a palavra em que está inserido.


Uma das dificuldades que se coloca às crianças que estão a aprender a ler e a escrever deve-se precisamente à complexidade das regras que ligam a linguagem escrita à fala. Enquanto num sistema alfabético puro a cada fonema corresponde uma letra, no sistema de escrita português essa correspondência nem sempre é linear, na medida em que nem sempre a um mesmo fonema corresponde a mesma letra e vice-versa.


Neste sentido, é importante que nos coloquemos no lugar das crianças para podermos compreender que aquilo que para nós já é automático pode fazer confusão a um leitor principiante, como por exemplo na palavra guerra não lermos o “u”, na palavra gema o “g” ler-se “j”, ou na palavra cinema o “c” ter valor de “s”. E isto já para não falar do “x” que se lê de maneiras totalmente diferente nas palavras peixe, exército, táxi e experiência. Não é assim tão fácil, pois não?

Qual a importância de uma aproximação duradoura à leitura?


Desde o momento em que as crianças percebem como funciona o mecanismo da leitura até àquele em que começam a ler com rapidez e precisão leitora, demora sempre algum tempo, que pode ser mais ou menos longo conforme os alunos. Há crianças que adquirem fluência na leitura rapidamente e há outras para as quais este processo é mais demorado, o que não significa que, quando derem o salto, não fiquem a ler tão bem como os seus colegas.


Durante o tempo de aprendizagem, em que a atividade da leitura implica esforço por parte do leitor principiante, é importante cativá-las para a leitura, propondo modalidades de leitura variadas e atividades diversificadas, que não só contribuam para aumentar o tempo dedicado à leitura, como também o façam estimulando o envolvimento das crianças nesta tarefa.


O envolvimento e também o deslumbramento são fundamentais para criar uma aproximação duradoura à leitura. Na verdade, a aprendizagem da leitura e da escrita representa o ponto de partida para uma caminhada com uma margem de progressão que está longe de poder ser delimitada no tempo e que, tendo início no 1.º Ciclo, continua muito além deste nível de escolaridade, prosseguindo nos ciclos subsequentes de ensino e também ao longo da vida.





Quais os desafios que se colocam a um leitor inexperiente?