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Aprendizagem

O meu filho escreve tal e qual como ouve as palavras: será normal?

Numa primeira fase, as crianças escrevem tal e qual como ouvem as palavras, não utilizando as regras ortográficas que ainda não dominam. Esta fase faz parte do processo de aprendizagem e é ultrapassada à medida que as crianças evoluem no conhecimento da ortografia.


O que é a fase da “escrita fonética”?


Para quem escolheu o ensino por vocação, um dos momentos mais marcantes da aprendizagem corresponde à altura em que as crianças começam a ensaiar as primeiras tentativas de escrita, a que se costuma chamar a fase da “escrita fonética”. Dito de uma forma simplificada, nesta fase os alunos procuram identificar os sons existentes nas palavras, traduzindo-os em letras, tal e qual como os ouvem.


Acontece que, como é natural, esta transposição do oral para o escrito ainda não obedece às regras da ortografia (que, aliás, nesta fase os alunos desconhecem) e reproduz a forma com as crianças pronunciam as palavras (que nem sempre é a mais correta), pelo que os resultados podem ser curiosos e, por vezes, algo misteriosos.

Quais os desafios que as crianças enfrentam nesta fase?


De um modo geral, as crianças enfrentam os seguintes desafios nesta fase inicial da aprendizagem da escrita:


Escrevem tal e qual como ouvem


Nesta fase, as crianças escrevem as palavras tal e qual como as ouvem, apoiando-se no nome das letras para reproduzirem os sons, sem utilizarem as regras ortográficas que ainda não aprenderam.

 
Por exemplo, se quiserem escrever mesa, podem escrever “meza”, pois o som que ouvem corresponde à letra z.


Para a palavra gelado, podem escrever “jeladu”, recorrendo à letra “j” em vez de “g” e à letra “u” em lugar do “o”.


Para escreverem brinquedo, é possível que usem o “c”, escrevendo “brincedo”.


Mas há outras palavras que podem ser difíceis de interpretar, mesmo para os professores experientes, tal como é o caso do menino que escreveu “vi s”. Quando lhe foi perguntado o que tinha escrito, respondeu com toda a naturalidade: “Não se vê logo que é ‘viesse’?!”.


Escrevem tal e qual como dizem


Algumas crianças ainda não pronunciam bem algumas palavras e estas inexatidões refletem-se na escrita, sendo algumas das mais frequentes “augurte” em vez de “iogurte”, “bescoço” em vez de “pescoço” ou “rubeçado” em vez de “rebuçado”.


Mas há outras palavras mais complexas de identificar para um leitor adulto, como “mipurase” em vez de “me empurrasse” ou “intronase” em lugar de “entornasse”. Nestes casos, é importante que o adulto devolva às crianças as palavras bem pronunciadas, lentamente e com as sílabas bem identificadas.


No entanto, existem expressões que correspondem ao modo como se fala em determinados contextos sociais, como é o caso da expressão “desencrer” que muito me intrigou quando a vi escrita em diversos textos que tinha levado para casa para corrigir. Não tendo conseguido compreender, questionei os alunos, que me responderem prontamente que era quando alguém fazia uma coisa sem ser por querer. Quando lhes expliquei que a expressão correta era “sem querer”, ficaram muito surpreendidos, pois sempre tinham ouvido dizer “desencrer”.


Ainda não discriminam bem alguns sons


No início, as crianças ainda não discriminam bem alguns sons e é a própria aprendizagem da leitura e da escrita que as vai ajudar a realizar uma discriminação mais fina. Por exemplo, há crianças que ainda não distinguem bem os ditongos “ai” e “ei”, os sons “j” e “x” ou o “v” do “f”. Com a aprendizagem, estas questões costumam ser naturalmente ultrapassadas.


Podem omitir letras


Quando estão a realizar as primeiras tentativas de escrita, muitas crianças ouvem melhor as letras mais “fortes” ou mais “abertas”.

 
Por exemplo, em “casa”, ouvem melhor o “a” do que o “c”, mas em “cama” pode ser ao contrário, identificando melhor o “c” por comparação com o a.
Estas dificuldades iniciais, por vezes, podem dar origem a algumas omissões de letras. Nestes casos, é positivo exagerar o som das letras que a criança não ouviu para que esta as identifique.


Podem adicionar letras


Ao pronunciarem lentamente as palavras para as conseguirem escrever, as crianças por vezes ainda não identificam bem as sílabas e fazem adições de letras.
Por exemplo, no caso das palavras que se escrevem com duas consoantes juntas, as crianças podem escrever “felor” em vez de “flor” ou “felauta” em lugar de “flauta”.

Como conseguir ler o que as crianças escrevem?


Muitas vezes, os pais manifestam dificuldade em compreender algumas das palavras escritas pelos filhos nesta fase da aprendizagem. A melhor forma de o conseguir é oralizando, ou seja, lendo em voz alta e procurando compreender a lógica que está por trás do equívoco. Por exemplo, a tentativa de escrever “viesse” como “vi s” tem uma lógica e, se a lermos em voz alta, conseguimos perceber qual era a palavra que a criança pretendia escrever.


Mas há expressões que podem ultrapassar-nos de todo. Foi o que me aconteceu quando tentava decifrar o que um menino tinha escrito num balão de banda desenhada: “o mai god”. Não conseguindo de todo perceber, questionei-o. “Estou a escrever em inglês”, explicou ele. Com essa dica fez-se luz: era “Oh, my god!”.

Perante as primeiras tentativas de escrita, podemos falar em erros de ortografia?


Quando as crianças começam a fazer suas primeiras tentativas de escrita, ainda não podemos falar propriamente em erros de ortografia, pela simples razão de que elas ainda nem sequer dominam as regras ortográficas, que são introduzidas posteriormente, geralmente no final do 1.º ano e início do 2.º ano.


Mas a aprendizagem da ortografia não fica consolidada de um momento para o outro, sendo necessário tempo e insistência para que estas regras sejam memorizadas e sistematizadas. Só depois desta aprendizagem é que podemos referir-nos a erros ortográficos e trabalhar com as crianças para que, gradualmente, escrevam com maior correção ortográfica.

Nesta fase inicial, devemos corrigir os erros?


Nesta fase inicial, o mais importante é que as crianças desbloqueiem a escrita e ganhem confiança na sua capacidade de escrever. Para tal, é significativo que os adultos as encorajem e reconheçam os seus progressos.

 
A correção dos erros ortográficos deve ser adiada para mais tarde, quando a capacidade de escrever estiver mais consolidada e as regras ortográficas tiverem sido progressivamente abordadas.

 
Nessa altura, é relevante insistir regularmente no trabalho sobre as regras ortográficas e aumentar gradualmente a exigência com a correção ortográfica, que constitui, sem dúvida, um importante objetivo a atingir.

O meu filho escreve tal e qual como ouve as palavras: será normal?